De Walsh a Hellman, de Gallo a Loden: atravessando a América

Do western ao road movie: “Big Trail”, “Two Lane Blacktop”, “Brown Bunny” e “Wanda”

[…] I myself but write one or two indicative words for the future,
I but advance a moment only to wheel and hurry back in the darkness.

I am a man who, sauntering along without fully stopping, turns a casual look upon you and then averts his face,
Leaving it to you to prove and define it,
Expecting the main things from you.

Walt Whitman, “Poets to Come”.

Uma dúzia de planos em The Big Trail (1930) sintetizam o tamanho da ambição de Raoul Walsh. O primeiro é um deles: uma composição em formato Scope abrange o imenso território denso, árido e rochoso com o qual Walsh lidará por todo o filme, dispondo um mundo físico e latente que nunca parece se encerrar ao olhar do plano. Mas não é, evidentemente, só de paisagens que The Big Trail se ocupa. Há, na mesma composição, um enorme contingente de personagens dispostos em cima de cavalos, carruagens, realizando atividades das mais diversas, e é esse grupo que Walsh administra com a mesma maestria com a qual lida com o espaço pelo qual percorrem. A relação entre ambos é de um vínculo fortíssimo: as personagens do filme são um grupo de colonos que precisam atravessar o país, buscando uma nova Terra Prometida na qual irão se assentar e construir uma comunidade. Entre famílias inteiras, outras em processo de formação e mesmo as figuras independentes e solitárias, como a personagem de John Wayne (aqui em seu primeiro papel de destaque na carreira), todos entendem a necessidade de encarar a jornada da travessia. Lidamos aqui com personagens cujo objetivo é muito bem definido desde sempre: percorrer um imenso território que se mostra ainda difícil de ser decifrado e tateado por completo, numa jornada jamais errante, mas antes retilínea e definida, eventualmente interpelada pelos imprevistos da natureza.

Por mais que lide com apenas uma das variações temáticas (a da travessia) que perpassariam o imaginário do gênero em décadas porvir, o filme parece se configurar, já em 1930, como uma matriz dos westerns mitológicos: a representação do mito da conquista do território, o respeito pelo trajeto e seus desafios físicos por ele imposto, a captura das grandes paisagens, os conflitos humanos… enfim, tudo que se apresenta aqui diz respeito a temas em potencial, que não falharam em serem desenvolvidos no gênero em filmes posteriores, pelos mais variados cineastas. E há ainda algo de verdadeiramente pioneiro nele, que conecta mais ainda o gesto dos protagonistas com aquele contido no seio de sua realização: trata-se da ambição extrema inscrita na utilização da película em 70mm, assumindo frontalmente o risco em potencial – e tão logo confirmado, tendo em vista que o formato não vingaria, retornando apenas cerca de 20 anos depois sob um contexto completamente diferente – do uso desta tecnologia, quando o próprio filme sonoro ainda começava a dar seus primeiros passos. Está aqui a tentativa, a face posta frente ao erro, de um gesto que buscava a maximização da captura da realidade num filme cujo esqueleto está todo fincado sobre essa questão muito material e real.

Mas se a jornada em The Big Trail é epopeica, heróica, cabe dizer que jamais o filme se reduz a lidar somente com estes grandes temas. Existe um gerenciamento equilibrado entre as duas dimensões inseparáveis do filme. O acerto de Walsh é saber que seu fundo colossal é o caminho para lidar com uma grande quantidade de personagens e vice-versa. Todos são gerenciados sob o mesmo crivo, a mesma atenção particular que os torna tão reais. Claro, temos aqui um grupo de protagonistas e conflitos principais bem definidos – a personagem de Wayne, seu par romântico, seus amigos e seus detratores, com os quais travará uma batalha física e moral até o final do filme – que direcionam a narrativa. Mas, em última instância, é impossível não se render à beleza pela qual transitamos entre tantas figuras e tantos temas. Ora o filme é romântico, ora aventureiro e realista. Por muitas vezes estamos em contato direto com o peso material da jornada, e por outros tudo isto tudo transcende ao espiritual. Se as personagens não podem, em momento algum, subestimar a natureza e a grandiosidade que se impõe a elas (quando o fazem, são veementemente repreendidos por suas forças, como na tentativa de passagem pela tempestade), lidar com o mundo e a travessia de maneira lúdica não é um erro, de modo algum – basta pensar na personagem do rapaz recém-casado, com uma mulher grávida de gêmeos e sua sogra, que a ele parece mais incômoda do que os percalços do trajeto em si. Tratam-se, antes de tudo, de seres humanos, de caráter tão extenso e variado quanto se possa imaginar.

A força que emana do confronto com o real, com a necessidade de efetivamente pensar sobre meios de superar obstáculos físicos, impostos pela natureza e que se demonstram incontornáveis (a cena da descida das carroças na colina é exemplar nesse sentido) é o terreno que Walsh parece sedimentar para uma série de outros filmes que colhem esta herança. De imediato, é possível pensar em Union Pacific (Cecil B. DeMille, 1939) e Wagon Master (John Ford, 1950). Filmes eminentemente clássicos, eles impressionam pela qualidade irremediável de seus protagonistas, a convicção que carregam no fundo das jornadas que traçam pelo território de um país ainda pouco definido enquanto tal, terra de confrontos e de incertezas. O que se põe sobre seu caminho (os bandidos que acompanham as caravanas em Walsh, as traições eventuais da competição de construções ferroviárias em DeMille) são os conflitos principais, humanos e mundanos que acabam sendo o foco de seus filmes. Mas, dentro de um sistema equilibrado, o fundo grandioso também se faz presente sobre estes; a personagem de Wayne cumpre, antes de tudo, sua missão de guiar os colonos até o local prometido – só então, para ele, é possível e mesmo ético levar a cabo sua jornada pessoal de vingança contra os homens que lhe tiraram um amigo. Em Union Pacific, a personagem de Robert Preston não permite, no final das contas, que as ambições mesquinhas do companheiro interpretado por Brian Donlevy se sobreponham ao grande sonho americano presente na ideia da construção da ferrovia que dá nome ao filme, motivo de orgulho para todos envolvidos. Enfim, sempre parece existir a necessidade de conciliar a intimidade com a grandiosidade para que as personagens se sintam efetivamente realizadas. 

Em diversos momentos no filme de Walsh, somos interpelados por alguns letreiros que buscam dar conta de uma elipse que toma lugar na história (a jornada das personagens durará, no total, cerca de pouco menos de um ano). Talvez não seja absurdo pensar que o recurso a uma série de letreiros se desse por uma suposta “insegurança” do jovem filme sonoro em contar suas histórias, como se a palavra escrita em tela ainda representasse uma espécie de porto-seguro, um suporte necessário ao esclarecimento narrativo. Mas este não parece ser o caso. Aqui, o uso dos letreiros cumpre, principalmente, essa função de demarcação temporal, apesar de não ser extremamente literal e ainda resguardar um senso de mistério na enunciação dessas passagens (nunca vemos algo como “passaram-se 3 meses…”, mas, antes, descrições mais líricas, como “Dez exaustivas milhas por dia. Não há estrada, mas há vontade e a história abre o caminho“ [1]). Ao mesmo tempo, eles aumentam substancialmente o substrato poético das imagens que os seguem. Calcado sobre o manto da aventura – ainda que, claro, esta sendo abordada sob um ponto-de-vista dos americanos – o filme respeita sua matéria-prima (o mundo e sua extensão, seus obstáculos), mas faz tensão sob esse respeito ao ponto de conseguir enfrentá-la na medida certa. É daí que surgem as mais belas imagens do filme, que consistem em um sem-número de carroças navegando pela vastidão do deserto. Filmando com grande profundidade de campo, Walsh tudo nos dá a ver e reclama para si uma condição de pintor. Cada imagem que compõe harmoniza a objetividade de sua narração à uma sensibilidade plástica admirável. Nela, surge o real visto sob uma poética totalmente arranjada, límpida e sedutora.

Perto do final, a personagem de Wayne deixa os colonos em seu destino e parte para concluir sua intriga pessoal de vingança, honrando um compromisso firmado consigo mesmo e sua moral. Tendo matado seu rival, retorna para a Terra Prometida, onde havia deixado seus colegas: neste momento, nota-se uma mudança brusca na composição plástica do filme. Não somos mais confrontados com a longuíssima profundidade de campo que nos oferecia toda a extensão do horizonte, mas com composições que em seu fundo abarcam uma série de árvores de troncos imensos. Aquele que se mostrou, durante todo instante, como um filme extremamente preocupado com o movimento – apesar de sua câmera na maioria das vezes fixa, decerto decorrente das complicações técnicas de sua realização – das coisas, dos animais, das pessoas, da narrativa e do mundo, agora pinta um quadro de raízes mais fincadas ao chão, de personagens que ali se firmarão, formando vidas de longevidade que se confundirão com às das árvores que percebemos no fundo.

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“Da combustão ao congelamento, toda uma história do cinema americano moderno pode ser contada”. O trecho é de Luiz Carlos Oliveira Jr., e está contido numa nota de rodapé de seu A Mise en scène no Cinema: Do clássico ao cinema de fluxo [2]. “Combustão” e “congelamento”, nesta passagem do livro, fazem referências ao processo de intervenção no material fílmico pelos quais se encerram, respectivamente, Two-Lane Blacktop (Monte Hellman, 1971) e The Brown Bunny (Vincent Gallo, 2003). É interessante mesmo pensar neste aspecto comparativo, de como dois filmes tão diferentes e distantes na história podem oferecer esse panorama amplo de uma cinematografia extensa e variada como a americana num espaço de pouco mais de 30 anos, tendo quase delimitado pontos de partida e de chegada (Gallo é um cineasta cuja disposição para certas experimentações formais em uma chave narrativa parece ainda sem continuidade no cinema americano). E, principalmente, como ambos (e mais tantos outros filmes) retrabalham a relação do homem com o espaço, do peso de uma jornada que atravessa o país, resultando numa linha a ser traçada que torna, definitivamente, o road movie um desdobramento natural do western de travessia. [3]

Ambos os filmes, se não são road movies propriamente ditos – Oliveira Jr. diz ainda que o filme de Gallo está na linha dos “anti-road movies” – se aproveitam muito bem da situação-base do gênero: personagens que, por motivos distintos e bastante particulares, cruzam o país buscando cumprir alguma jornada material ou espiritual. Seria exaustivo enumerar as tantas diferenças entre os dois filmes, por si só já muito longe na história, e os de Walsh, DeMille ou Ford. Foi o tempo de surgir, entre tantas mudanças, o que convencionou-se chamar de western revisionista, que confrontava a lógica de conflitos implicada nos filmes “fundadores” do gênero. 

Podemos levar em consideração, também, o filme noir e o modo como este costuma enxergar o caráter das “grandes cidades americanas” como essencialmente sujo, perigoso, algo cada vez mais explorado no advento do cinema norte-americano setentista (nos neo-noirs e filmes policiais, principalmente), e cujo espírito parece impregnar na visão lançada sobre as rodovias americanas dali em diante (ao menos nos casos nos quais foram mais bem filmadas). Se o western da linha mencionada antes, das grandes jornadas fundadores da nação, narrava histórias de fé, de esperança no que faziam e por onde andavam, aqui o panorama é invertido. Cidades construídas, um país todo erguido e consolidado, e ainda assim os problemas estão todos lá, escondidos nas sombras e esperando para assaltar à luz, como os primeiros 30 minutos de On Dangerous Ground (Nicholas Ray, 1950), um amálgama de acontecimentos violentos na noite urbana, parecem demonstrar de maneira exemplar.

Two-Lane Blacktop é centrado em dois homens que dirigem um carro modificado pelos Estados Unidos, apostando corridas (e vivendo delas) com outros motoristas ao longo do caminho. Ao contrário do que acontece com as personagens dos filmes antes mencionados, essa dupla de protagonistas jamais consegue exteriorizar seus objetivos e suas vontades. Parece existir apenas o desejo de correr, mas sempre apostando nestes destinos em aberto. Todas as relações apresentadas, na verdade, são bastante ambíguas. Ambos são irmãos? Apenas amigos? Nada nos é respondido. Hellman joga com estas caracterizações enigmáticas, vagas, pintando o quadro de personagens que operam sem qualquer profundidade – mesmo sem um nome, já que os conhecemos apenas pelos genéricos apelidos relacionados às suas funções, “Motorista” e “Mecânico”. Não há passado para as personagens do filme, com exceção, talvez, do motorista de um carro esportivo, com o qual ambos fazem uma aposta de uma corrida mais longa, indo do Novo México até Washington. Este,uma figura mais caricata, ainda que tente, não exala a energia que parece via de regra do ambiente automobilístico que acompanhamos, no qual todos, em especial os protagonistas, parecem absortos quando sob o volante, sempre optando por conversas escusas, concisas, e mesmo por uma antropomorfização dos veículos que parece complementar a maneira vazia como se relacionam.

Se não há passado para estes protagonistas, também presente e futuro são incertos, como que misturados numa condição híbrida: o Motorista, com seu olhar fechado, rígido e sempre olhando para frente, paradoxalmente só consegue pensar na adrenalina do momento presente, mas que de tão efêmero, logo se dissipa. O trajeto que ambos traçam pelos Estados Unidos, em contraste com o dos colonos de The Big Trail, é errante, sujeito a desvios muito pouco objetivos, ou frutos de seus planos feitos à revelia de qualquer ambição maior. Diferente dos planos fixos de Walsh, nos quais as personagens atravessavam calmamente a longa extensão territorial do deserto, o filme de Hellman parece estar sempre correndo atrás daqueles que, agora, trocaram os cavalos pelos carros. Panorâmicas tentam capturar os veículos que atravessam de uma ponta a outra do quadro em questão de segundos. Se antes a lentidão da travessia representava a oportunidade da contemplação, da conciliação da jornada com o mistério inefável da natureza, o trajeto agora feito a carro representa a diluição da relação entre o homem e o espaço. Ainda colossal, ela está lá com a mesma grandiosidade de antes, mas agora vê distante de si seus transeuntes. Cada qual em seu carro, centrados numa direção paradoxalmente vaga o suficiente, as personagens nos desafiam a acompanhá-los na extensão deste vício, desta fixação pelo momento e o ato de dirigir – já que, em verdade, nada de realmente impactante acontece a eles durante o filme, uma vez que todas as tentativas de aprofundamento das relações humanas aqui são rapidamente descartadas. Sempre com esta separação bem demarcada – o homem e a natureza não estão mais em harmonia, mas apenas possuem tangentes de contato em suas vivências – o filme lida com este aspecto um tanto maçante até o limite. 

Colocar Hellman e Walsh lado a lado, com o peso dos 40 anos que os separam, torna cristalina a diferença entre os tipos de cinema em questão e a mutação completa de uma poética. Fim do lirismo conciso representado por heróis bem decididos, de paisagens pictóricas e de uma linearidade exemplar. Two-Lane Blacktop aposta num radicalismo da repetição de um ato, operando pelo caminho inverso da identificação psicológica que os protagonistas de The Big Trail, ao falarem do universal através do seu particular, nos ofereciam. A inquietação aqui reside em nossa tentativa de entender a extensão desse vício, de qual será o ápice de um acúmulo de recusas emocionais pelas quais o filme caminha. Pouco nos importa, por exemplo, quem será o vencedor da corrida travada entre o Motorista e o Mecânico e seu rival – isso tão logo deixa de ser uma questão também para o próprio filme. Hellman desloca o interesse para a nulidade que essa disputa representa, para como quilômetro após quilômetro, encontro após encontro, estas personagens conseguem continuar a manter uma postura completamente ambígua quanto ao outro – há cenas em que um indício de amizade parece florescer, outras em que uma extrema atmosfera de sarcasmo e ignorância volta a tomar conta e assim vai – e essencialmente indiferente quanto ao espaço que percorrem.

Tudo isso nos leva à tal “combustão”. Embarcando em mais uma dessas corridas, o Motorista observa um celeiro com animais, no que parece um dos poucos momentos do filme no qual a palavra “contemplação” parece achar correspondência, e então fecha a janela do veículo. O som do impacto ressoa de uma maneira bastante expressiva, encontrando neste eco uma fuga de um certo realismo duro até então apresentado. Ao mesmo tempo, o ruído do restante do mundo parece entrar em suspensão. Tocada a marcha e com o carro em velocidade, aos poucos o filme perde velocidade, adentrando neste terreno de uma intervenção extra-fílmica, que se dá mesmo pela destruição do material físico da própria obra. Não haveria outra maneira de encerrar esta jornada, senão admitindo sua impossibilidade por meios narrativos. A certeza que o filme de Walsh nos dava era a de que as personagens seguiriam a vida, cumprido o objetivo traçado e que fora seguido de maneira completamente dedicada. Aqui, também uma certeza pode ser sentida, mas operando antes numa chave de agonia, não de um final narrativo tradicional, de uma jornada cumprida: ambos continuariam correndo e correndo, seguindo o mesmo ciclo vicioso que assistimos. É preciso, então, condenar e encarcerar estas personagens de alguma forma ao destino que eles mesmos traçaram. Se Two-Lane Blacktop não aposta no mesmo caráter pictórico das composições presentes no filme de Raoul Walsh, essa recusa parece encontrar uma superação neste plano final: homem, máquina e natureza sucumbem todos ao agressivo processo de combustão da película, dando luz à uma imagem que transcende o real, mas também não deve ser limitado à abstração ou à experimentação. É simplesmente misteriosa. 

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Distante em 30 anos e uma outra série de transformações no seio da arte e da indústria cinematográfica, encontra-se o filme do “congelamento”. The Brown Bunny é o segundo longa-metragem de Vincent Gallo, ator e cineasta, que aqui encarna o protagonista Bud Clay, um piloto de motocicletas que dirige seu furgão ao longo do país. A situação de Clay também nos é bastante ambígua: a princípio, aparece apenas como mais um homem desocupado que vaga pelo país, num trajeto sem qualquer definição. Ao longo de seu percurso, sua real situação começa a emergir: ele encontra-se entre a busca por uma paixão antiga (talvez mais do que isso, a superação do trauma representado por ela) e tentativas de abraçar uma nova – todas estas fracassadas, por culpa dele próprio, indo de uma adolescente que ele seduz num posto de gasolina até uma garota de programa na rua.

Onde Two-Lane Blacktop recusava adentrar numa profundidade psicológica das personagens, das declinações do interior emocional que os compõem, tudo isto parece retornar de modo essencial no filme de Gallo. A jornada física de Bud Clay, atravessando o país, parece se confundir com a sua turbulenta vida amorosa e emocional. Em alternância com longuíssimos planos paisagísticos e as tentativas de Clay de se apegar a um novo romance, abrem-se as brechas que nos explicam quem ele tanto procura e o porquê: trata-se de sua ex-namorada Daisy, que supostamente o deixou e com quem ele busca retomar o contato. Acontece, descobrimos lá no final do filme, que Daisy na verdade já está morta há algum tempo, após ter sido estuprada em uma festa enquanto grávida do bebê do casal. 

Confirmada apenas ao final, a revelação da morte da ex-namorada de Clay evidentemente dá todo um novo sentido à jornada antes vista. Se já era muito fácil duvidarmos de sua sanidade mental, do quão concreta sua busca era – ele chega a visitar a casa dos pais dela, numa cena que ressoa um angustiante desencontro psíquico e emocional entre os três (ambos, inclusive, não chegam nem a lembrar dele), além de ser avisado por uma vizinha da antiga casa da garota de que “não havia ninguém ali” ao deixar uma carta para ela na porta – o final apenas nos confirma o que todos os indícios pareciam apontar: a mente de Clay é mesmo um terreno de total instabilidade, de negação da realidade enquanto ela se apresenta a ele. Sua travessia pelos Estados Unidos confirma que, passado todo o gigantismo heróico buscado pelas personagens de Walsh, a estrada se tornou uma espécie de purgatório por onde passam as almas penadas, torturadas, todas a procura não da redenção, mas de algo que nem eles mesmos sabem.

Filmando a si próprio na maioria das vezes dentro de seu carro, numa pose de perfil, a personagem de Gallo nunca dá as caras de fato. Seu trauma é lentamente reconstruído por estes gestos de recusa de outras mulheres e outras experiências no geral. A visão da estrada urbana, repleta de veículos, apreendida por detrás dos vidros do carro, insiste em se confundir com algo abstrato; há uma permissão absoluta para a invasão da luz, do desfoque, para um balé de corpos desengonçados (seu encontro com Lily, a mulher que conhece e beija durante uma breve parada em um parque) que a câmera jamais faz questão de enquadrar por completo, deixando-os à revelia da captura absoluta e perfeita do gesto para focar em sua potência poética. Tudo isso gera uma materialidade imensa para a tragédia de Clay, ao mesmo tempo em que aponta para uma abstração completa da realidade em que vive. Sua vida, afinal, parece ser toda isso: ir atrás e fugir daquilo que vivera.

Pertencente a uma mesma linhagem de uma sensibilidade plástica ímpar, Gallo também olha para o mundo e para as grandes distâncias a serem percorridas com a visão de um artista. Não só captura a si de perfil, numa posição pouco reveladora, que nos exige a paciência diante dos desdobramentos destes gestos lentos, mas recupera um elo que Hellman preferiu quebrar. Homem e natureza voltam sim a conversar, mas aqui de modo completamente absoluto e radical. Bud Clay não apenas pertence ao mundo, que parece comportar todo o peso de seu fracasso emocional, como também se funde a ele. Para além desses enquadramentos “imperfeitos”, atravessados pela intensidade e imprevisibilidade das atuações, de um objeto qualquer e da luz que o mundo neles projeta, há a metamorfose do protagonista de um elemento figurativo para mais um aspecto que compõe o plano, como se fosse parte da paisagem, quando não mesmo abstrato. É o que acontece quando, cansado de dirigir sua van, desce dela e pega sua motocicleta, pilotando em direção ao nada, sob um chão branco, denso e plano, se perdendo no meio da linha do horizonte e das ondas de calor.

A tensão entre estar ou não lidando com a realidade é o fio condutor do filme, todo pautado na capacidade de Clay de aceitar ou não o seu passado, mais do que seu destino. É impossível saber para onde vai, mas é evidente que há um acerto de contas pendente que ora ele reconhece, ora não. Sua negação em se relacionar com novas mulheres, mesmo quando engata algo mais concreto (como os beijos, com a primeira menina que aparece no filme e, mais tarde, de modo mais intenso, com Lily) sempre parece indicar uma consciência muito certa de seu passado, aludindo a um trauma que ainda reside nele e que não parece encontrar superação em qualquer tipo de experiência e relação humana possível. Ao mesmo tempo, Clay busca incessantemente se reconectar com Daisy, seja levando uma carta a ela em seu antigo endereço ou buscando um novo coelho de estimação (possivelmente para ela).

Essa dualidade mental atinge um ponto limítrofe na famosa cena final do filme, em que Daisy finalmente aparece e busca, de alguma forma, consolar Clay. Ela adentra um quarto de motel onde o protagonista se encontra desolado, mas sua presença ali está menos ligada à uma áurea redentora do que a um castigo final a ser imposto ao protagonista. Uma longa conversa toma lugar na cena e tão logo ambos começam a se beijar, num ato que logo evolui para a conhecida e polêmica felação explícita realizada por ela. É somente após a consumação do ato, em meio a um diálogo entre os dois, que são introduzidos flashbacks dando conta do que aconteceu: Daisy não apenas estava morta, como todo o evento de sua morte é rememorado para maior desespero de Clay, que descamba de chorar. Imagens do dia em que fora estuprada durante uma festa são exibidas, enquanto essa projeção de Daisy diz a ele que a culpa não era realmente sua, que ela estava muito drogada, machucada etc., todas coisas que ele gostaria que fossem verdades, mas que, no fundo, não o eximem do fardo que carrega – e no limite, também não podemos tomar como verdades absolutas. 

Ela some e ele volta à estrada. Tudo lá permanece igual – cenários urbanos, interiores, rodovias cheias ou vazias – tal como seu semblante. Após renegar todos os símbolos e experiências concretas da realidade, foi somente recorrendo à própria consciência, ao projetar sua falecida namorada, que toda agonia pareceu momentaneamente sanada. E ainda assim, nada parece mudar de fato. No mesmo enquadramento de perfil, contra a janela pela qual a luz insiste em se confundir com fragmentos de uma paisagem desfocada, ele segue sua vida e jornada por este espaço arenoso que é o território americano, no qual dividimos algumas horas de angústia com ele. É impossível dizer que sua instabilidade emocional não atacará novamente, levando-o a repetir um ciclo vicioso de ir atrás de mulheres, recusá-las, se decepcionar e se desiludir. Daí surge essa necessidade de intervir, como ocorre em Two-Lane Blacktop (evidentemente por motivos distintos) no material fílmico. Gallo congela o próprio rosto nesse ângulo que perdurou por todo o filme, o perfil que revela pouco ou quase nada, no que talvez seja seu único modo de se esquivar da crua realidade (e da câmera) que o perseguem e assombram desde o começo do filme, que abre com ele pilotando sua moto: se escondendo, dentro de um carro, misturado à natureza e o fluxo urbano que, independentes do congelamento, continuam a ressoar por alguns segundos no plano.

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Há um terceiro filme possível a ser incluído na hipótese formulada por Luiz Carlos Oliveira Jr. É Wanda (1970), dirigido por Barbara Loden. Realizado em 16mm e sob orçamento baixíssimo, Wanda é centrado na personagem título, Wanda Goronski, também interpretada pela diretora. Para chegar ao tema do road movie, Loden propõe uma inversão radical no estatuto da desordem estrutural familiar: é sua própria personagem, mãe casada de dois filhos, quem deserda e abandona a família, não para viver uma aventura romântica com outro homem, mas mesmo por sua incapacidade de gerir e se sentir pertencente ao núcleo familiar que havia criado.

Filmado e lançado (para então adentrar um longo e tenebroso ostracismo [4]) antes mesmo de Two-Lane Blacktop, Wanda parece lançar as bases de uma desmistificação do território americano promovida em filmes vindouros, notadamente estes dois já abordados. Sua primeira imagem parece guardar nela toda as bases dessa inclinação: um plano geral de um canteiro de obras, que lentamente se move em panorâmica, revelando um espaço áspero, sujo, e então cortando para a frente de uma casa localizada ali mesmo em meio ao canteiro, onde encontraremos a protagonista dormindo. Wanda não mora lá; estava, aparentemente, dormindo de favor graças à generosidade de um casal que a acolhe. A sequência, na qual ela acorda em meio ao choro estridente do bebê da casa, também já adianta o estilo da mise-en-scène de Loden: planos longos, quase documentais, feitos com câmera na mão, uma imagem bastante granulada, e um ritmo de atuação bem compassado para comportar os gestos mais naturais possíveis de seus atores.

Wanda demora a engatar uma trama propriamente dita. Comparecendo a um tribunal e declarando-se isenta de qualquer responsabilidade para com seus filhos, admitindo que as crianças estão mesmo melhores nas mãos de seu pai e não nas dela, o núcleo familiar perde todo o potencial dramático e torna-se tão somente um fato apresentado pelo filme, algo que voltará a ser lembrado vez ou outra por ela em diálogos muito evasivos. E assim será por todo o resto da narrativa, que abraça completamente esse lado observacional, bastante cru, em detrimento de uma dramatização de qualquer gesto e fato. Tudo é movido por pequenos percalços, incidentes ínfimos na vida de Wanda que, pouco a pouco adquirem um certo peso dramático.

O que o filme guarda de realista e direto, sua personagem tem de inocente. Tudo que se desenvolve é motivado, de um modo ou outro, pelo caráter ingênuo da protagonista, uma mulher que parece alheia ao contexto social em que vive. Ainda no começo vemos outra cena, na qual ela procura um antigo empregador seu para pedir um complemento de renda por um trabalho que havia realizado antes em sua fábrica. Ao ser explicada calmamente sobre o que é um imposto, o porquê de ninguém receber o montante que a eles é prometido e o motivo pelo qual não seria contratada novamente, Loden não extrai de si mesma uma reação exaltada, chorosa ou que exija nossa pena daquela pobre alma. Sua opção é o recurso ao silêncio, a um olhar vagaroso que rodeia o gabinete do homem enquanto ela absorve a informação. Sob esse mesmo manto de inocência ela prossegue, então, indo para um motel com um homem que conhece num bar, caindo no sono após o serviço realizado (pelo qual ela não parece ser propriamente paga em momento algum), para então ser abandonada por ele no meio da estrada. 

Essa sequência de perambulações, que vão desde visitar um shopping center e se encontrar completamente deslocada até ir ao cinema, dormir durante o filme e ter o resto de seu dinheiro roubado da bolsa, parece chegar ao fim quando, ao entrar num bar fechado, Wanda encontra Mr. Dennis (Michael Higgins), um criminoso que discretamente rendia o barman no momento em que ela entra – crime do qual ela, acidentalmente, vira cúmplice, descobrirá depois lendo uma matéria no jornal. A partir daí, ambos passam a viajar juntos – menos por qualquer afinidade romântica, mas antes pela malandragem de Dennis em se aproveitar da inocência de Wanda e utilizá-la como um serviçal para seus planos e necessidades (ainda que o filme deixe implícito que ele não hesita em se aproveitar fisicamente dela sempre que possível).  

Se a cena da visita ao shopping center já sublinhava uma diferença definitiva entre a vida que Wanda poderia ter e a que tem (há um match cut brilhante que corta da imagem dela para um manequim feminino melhor vestido), não será também a parceria forçada com Dennis que trará o luxo com o qual a mulher americana média sonha. Usando o dinheiro dos crimes que ele comete, Wanda compra algumas roupas, vislumbrando qualquer mudança na sua aparência (também muito criticada por ele), mas tudo isso é rechaçado por gestos muito agressivos de seu acompanhante, que a xinga, joga as compras pela janela do carro e impõe uma série de regras a ela, como se estivessem numa relação de marido e mulher. 

Aos poucos, a travessia que fazem de carro se torna a extensão do inferno astral dela, agora personificado na figura de Dennis. Antes do olhar de Hellman que insistia no registro exaustivo de dois homens dirigindo, ou da melancolia interminável pensada e vivida por Vincent Gallo, a estrada americana foi filmada por Loden como palco do desfile das figuras irreconciliáveis do american dream (e Dennis não deixa de ser uma delas). Naquele que talvez seja o único diálogo sincero que travam, Wanda diz “Não tenho nada. Nunca tive e nunca terei.”, ao que Dennis responde, irritado, “Quando você não tem nada, não é nada! É melhor estar morta. […] Não é nem mesmo uma cidadã americana”. Precisamente. Se há um desnível considerável representado na oposição da ingenuidade de Wanda com a malícia de Dennis (talvez isso que tenha levado Loden a declarar que seu filme era o “anti-Bonnie e Clyde“), no nível do interior da consciência de cada um, Wanda, ainda que através de um abatimento visível e incontornável, já consegue soar mais lúcida de sua própria condição (é aí, acredito, que o filme também funciona como um anti-Thelma e Louise). Os EUA dos shopping centers, das casas suburbanas, enfim, o país de uma estabilidade concreta, de um estilo de vida consolidado, mas exausto, não é aquele ao qual Wanda pertence, ela sabe muito bem. Seu lugar no país está posto no modo como, cena após cena, o filme se apresenta: enquadramentos imperfeitos, terrenos isolados e ruidosos, um estilo de atuação que parece beirar o improviso, incorporando desde explosões de violência por Michael Higgins até as longas pausas de Barbara Loden. A pobreza material diegética coaduna com um evidente pauperismo material com a qual o filme é realizado. 

O final do filme se dá com o planejamento e execução do roubo de um banco, planejado por Dennis. À Wanda, é designado um papel importante no plano (ela chega a efetivamente fazê-lo, em parte, quando assaltam a casa do gerente do banco), mas não lhe sobra muito tempo, já que Dennis acaba encurralado pelos policiais e logo é morto. Novamente, de toda uma cena que poderia ser repleta de excessos estilísticos (o assalto ao banco, a chegada dos policiais, a morte de Dennis), Loden retém apenas o essencial: os fatos. Dennis morre e, de modo até surpreendente, Wanda parece se emocionar com a partida do seu até então “companheiro”. Em seguida, quando um soldado que conhece num bar tenta estuprá-la, ela se livra, vai embora e chora. Estabeleceu-se ali algum laço que, por mais problemático que fosse, por mais que Dennis fosse, provavelmente, das piores pessoas que Wanda pudesse conhecer no país, parece ter mexido com ela. 

No fundo, Wanda (e aí entram tanto o filme, quanto a personagem) se concentra sobre o abandono de um estilo fortemente material. Viver a vida, não importa como – é impressionante que a personagem guarde, o tempo todo, a mesma gentileza, uma doçura internalizada, que parece não fazer concessão até um determinado limite (a tentativa de estupro). Fazer um filme, não importa sob quais condições… a visão de Loden sobre todo um ideal de vida (e mesmo de produção) entronizado na sociedade americana não necessita de reforços redundantes a cada 5 minutos, mas tão apenas sua visão integral, o mero observar do desenrolar de fatos.

Tendo apresentado toda esta crueza, Loden recorre, também, ao processo de congelamento da imagem para dar cabo ao filme. Sentada em um bar com outros desconhecidos, comendo um sanduíche e fumando um cigarro, Wanda é, mais uma vez, a figura deslocada. No que dá um trago em seu cigarro, em mais um desses planos que se limitam ao repouso do olhar instável, mas paciente sobre o gesto, a imagem congela, o plano aos poucos escurece e o filme acaba. O princípio parece o mesmo visto em Two-Lane Blacktop e The Brown Bunny, em que também toda a lógica à qual as personagens são submetidas possui uma inclinação muito cíclica. Os dois homens continuariam dirigindo eternamente, tal como Bud Clay poderia voltar a reincidir em sua instabilidade emocional e psicológica, saindo em busca de uma mulher morta pela estrada americana. Também Wanda poderia seguir fazendo, ciclicamente, tudo que acabamos de vê-la fazer: vender seu corpo, juntar-se com estranhos, comer restos de comida. É mais um filme cujo mundo que se apresenta a nós não tem delimitado, propriamente, um início e fim. É terreno onde a força da diegese, da ficção, parece enfraquecida frente a algo tão concreto e real. 

E todos estes elementos (o caráter possivelmente cíclico da narrativa, a jornada de uma mulher pelo país, todos os desafios a serem superados por ela ao se assentar em qualquer ambiente) abrem margem para uma outra formulação: Showgirls (Paul Verhoeven, 1995) começa onde Wanda termina.

Davi Pedro Braga

Notas:

[1] No original, “Ten weary miles a day. There is no raod, but there is a will, and history cuts the way”.

[2] Pág. 185 do livro.

[3] Nesse sentido, cabe aqui mencionar um cineasta cuja obra certamente abraça e lança um olhar particular sobre todos os temas aqui abordados e que, como disse Jacques Lourcelles, é ele próprio o herdeiro de Raoul Walsh (ver a entrada sobre The Deer Hunter no Dictionnaire du Cinéma Les Films). Trata-se de Michael Cimino. Abordando diferentes contextos históricos e sociais, da desilusão setentista pós-Vietnã ao faroeste histórico, dali ao filme policial e com um pé no turbilhão do final dos anos 90, Cimino deu atenção especial à esta relação do homem com o espaço e seu país, aos mistérios inefáveis da contemplação da natureza. É possível traçar um raccord gigante que atravessa toda sua filmografia, do começo de seu primeiro filme ao final do último, para ilustrar essa preocupação: de Clint Eastwood abrindo as portas de uma pequena igreja para fugir de uma vida passada em Thunderbolt and Lightfoot (1974) até Jon Seda correndo para abraçar completamente a vida espiritual que tanto procurava em The Sunchaser (1996), Cimino jamais buscou respostas, mas antes o registro poético dessas travessias, problemas, turbulências e reconciliações, num processo que pouco a pouco abriu mão daquilo que era concreto para chegar ao momento em que uma personagem é capaz de desaparecer em meio ao horizonte, encontrando sua paz interior.

[4] Este texto, que dá conta da história de distribuição e recepção do filme, ajuda a explicar como Wanda não teve, nos momentos que se seguiram ao seu lançamento, uma boa circulação, tampouco uma devida avaliação crítica. O cenário só parece mudar após uma restauração do filme em 2010, possibilitando sua apresentação para todo um novo público, em um contexto muito mais favorável que o de sua primeira aventura, possibilitando efetivamente a sua colocação na história do cinema americano. 

Os filmes de Richard Serra

“Eu teria continuado a fazer filmes, mas o problema era que eu tinha que achar o assunto à medida que trabalhava com a câmera. Eu não começava com uma ideia preconcebida do que o filme seria, e isso significava que eu tinha que carregar a câmera comigo o tempo todo. Fiz isso por algum tempo, talvez quatro ou cinco anos, mas esse processo me impedia de pensar sobre um monte de outras coisas. Eu também tinha um problema com o frame: ter que lidar com aquele retângulo prescrito era uma grande limitação. Eu nunca soube lidar com as contradições de o olhar tornar-se a câmera, o frame, a tela…” [1]

A contribuição e a relevância estética dos filmes de Richard Serra são pouco comentadas e mesmo desconhecidas pela maior parte dos espectadores cinematográficos, mesmo entre aqueles mais envolvidos com a cinefilia, o que se justifica também por esta produção cinematográfica ser, em certo sentido, um dado secundário em seu percurso artístico. Serra, pertencente a uma proeminente geração de artistas norte-americanos que ganha evidência a partir da década de 1970, consolidou-se como um dos maiores escultores do século XX e permanece ativo ainda hoje, como um dos mais notáveis remanescentes desta geração (cujas afiliações diretas mais conhecidas de Serra são Yvonne Rainer, Joan Jonas, Philip Glass, Robert Smithson e o também cineasta Michael Snow). Entre os anos de 1968 e 1979, desempenhará uma atividade cinematográfica relativamente breve, mas importante: realiza cerca de uma quinzena de curtas-metragens, experimentando também com o vídeo, então uma nova tecnologia, cuja busca por uma linguagem própria se tornará também um interesse constante de sua geração. [2]

Bastante influenciado pelas experiências realizadas no cinema underground de Nova York na década de 1960, particularmente pelos trabalhos de Andy Warhol e Yvonne Rainer, a primeira incursão de Serra na realização cinematográfica se dá por um pedido para que fosse feito um filme sobre a montagem de uma de suas esculturas, “House Of Cards” (1968). Este trabalho, também chamada de “One ton prop” (“apoio de uma tonelada”), consiste de quatro placas de chumbo que, apoiadas umas às outras e tocando-se apenas brevemente pelos ângulos superiores de suas margens laterais, formam um cubo aberto em sua parte superior. Em resposta ao convite, Serra decidirá filmar a sua própria interpretação do trabalho com uma câmera Éclair 16mm, não tratando de mostrar a escultura em si ou sua difícil ação escultórica, consistente da elevação destas placas pelo escultor e três outros amigos-ajudantes, mas concentrando-se em abordar a obra através de um aspecto mais puramente conceitual.

House of Cards (“One ton prop”) (1968)

A imagem que é encontrada para isso, de uma mão que tenta apanhar as folhas de chumbo que entram em quadro a partir de sua margem superior, em queda livre, é então representativa das múltiplas tentativas e investigações do escultor sobre as possibilidades de expressão a partir do material com que trabalha, tanto em “House of Cards” quanto em “Hand Catching Lead” (1968), título que recebeu este filme. A recorrência do mesmo material na escultura e no filme é o nexo mais evidente de uma associação entre os dois trabalhos, cujo paralelo pode ser melhor assimilado através de um caráter reflexivo a propósito não da escultura em si, mas do caminho que pôde levar o artista até ela. No caso de Serra, isto se volta mais intimamente a propósito dos próprios processos de produção, à sua poética particular de interpretação dos materiais e à tentativa de encontrar novas formas de expressão a partir deles.

Neste contexto, somos levados a crer que o acúmulo das impressões de chumbo na palma de sua mão é o resultado direto de sua experiência com a matéria, ao apreendê-la em meio a tentativas frustradas, na persecução de seu domínio material. Os pedaços de chumbo sempre atravessam completamente o quadro, independente se a mão falha ou sucede em agarrá-los, os abandonando para imediatamente seguir uma nova tentativa, em um gesto persecutório constante. Acima de tudo, é a absoluta redução dos meios cinematográficos aqui presentes o que dialoga de maneira mais efetiva com o seu trabalho escultórico, onde o volume, o peso e a “planaridade” da escultura adquirem uma função primordial, resumida às propriedades mais básicas de seu essencial expressivo. [3]

“Hand Catching Lead” (1968)

O discurso a propósito da “experiência” se afigura como uma constante nas entrevistas em que Serra é levado a refletir sobre o seu percurso de trabalho; mais do que qualquer inspiração temática, é a reflexão sobre os seus próprios procedimentos que frequentemente se mostrará no centro de novos trabalhos. Neste sentido, pode-se entender o princípio de serialidade destes primeiros filmes como variações em torno de ideias semelhantes, mas que vão de encontro a resultados e a propriedades formais completamente distintas. Assim, é deste modo que Richard Serra resume alguns de seus princípios de trabalho: “É impossível criar algo sem um fundamento rigoroso, irrefutável e, na verdade, até certo ponto, repetitivo. A provação da repetição é um modo de superar a indecisão de recomeçar: não repetir o que foi feito, mas retraçar o mesmo percurso.” [4]

Este será o primeiro de uma série de curtas-metragens que Serra irá produzir, inicialmente entre 1968 e 1971, seguindo-se a isto um período de experimentações em vídeo e, a partir de 1976, um novo e breve retorno à película. Tal como as esculturas produzidas em seus anos iniciais de atividade, também estes filmes possuirão certo caráter “primitivo” associado às noções mais básicas de seu meio expressivo. Serra, afinal, diz estar mais interessado no “preto e branco do quadro” do que em sua matéria conteudista, algo relevante para compreendermos de que modo a sensibilidade fotográfica às linhas e volumes no quadro desempenham um papel expressivo em seus filmes. Em certo sentido, devido ao seu interesse na realização de ações primárias, sua breve duração e sua fotografia em preto e branco extremamente contrastada, características que fazem pensar em como chegam até nós, hoje, os filmes dos pioneiros das imagens em movimento antes da primeira exposição do cinematógrafo dos irmãos Lumière, estabelecendo um diálogo seja com a ação repetitiva de “Blacksmith Scene” (1893) de William Dickson (em serviço a Thomas Edison) ou com os diversos estudos de movimentos corporais de Étienne-Jules Marey.

Começo e fim de “Hands Scraping” (1968)

Em “Hands Scraping” (1968), um volume luminoso de pó de ferro é despejado sobre um assoalho de madeira, afigurando uma espécie de monte de terra em que duas pessoas – ou, melhor dizendo, quatro mãos – deverão pouco a pouco, em um esforço conjunto, removê-lo aos punhados desta superfície para fora de quadro. A princípio, a matéria volumosa torna ágil o trabalho, progressivamente dificultado conforme se torna mais escasso o material a ser manuseado. Enquanto ele é removido, também o brilho pouco a pouco desaparece, restando ao fim apenas o assoalho vazio, em um quadro completamente escurecido, após as mãos e o material, objetos refletores de luz, também saírem de quadro.

Este movimento da fartura à escassez, cuja remoção absoluta é o objetivo do filme e das ações presentes na tela, dialoga diretamente com a própria depuração característica dos trabalhos de Richard Serra, seja pelo que representam as suas esculturas ou seus filmes. Ater-se ao mínimo de materiais e objetos, utilizar as formas mais diretas e contundentes, sem adornos. Mais precisamente, é a dificuldade deliberada imposta pela limitação progressiva, a qual se vai de encontro, o que caracteriza sua poética rigorosa de criação. Estas noções, manifestas através de um esforço físico posto em quadro, se manifestam com maior clareza em dois outros de seus curtas-metragens: “Hands Tied” (1968) e “Lead Hand Fulcrum” (1968).

“Hands Tied” (1968)

Em “Hands Tied”, a tensão se constitui da impossibilidade de movimentação de duas mãos amarradas firmemente por uma corda, que tentam se libertar, competindo com os limites de duração do próprio rolo do filme, sob a expectativa de concluí-lo enquanto a câmera ainda está filmando. Esta limitação, destacada pela aproximação da câmera e a ausência de outros elementos, implica uma dramaticidade em torno deste evento solitário, disposto sem qualquer tipo de contexto, adquirindo um caráter puramente performático. Em “Lead Hand Fulcrum”, uma mão tenta sustentar um volume de chumbo. A princípio erguida no topo do quadro, esta vai hesitando pouco a pouco conforme a progressão do filme, terminando em sua margem inferior, no que é um teste dos limites do quanto ela pode evitar ceder ao seu peso.

A abordagem mais direta deste aspecto conceitual em relação ao filme está em “Frame” (1969), no qual Serra mede sobre uma parede branca as dimensões que estão encerradas no próprio enquadramento de seu filme, perguntando a alguém atras das câmeras se o posicionamento da régua pela qual o mede está diretamente associado às margens da imagem – o que configura, também, um complemento sonoro que não estava presente em seus filmes anteriores. Apenas a régua e suas mãos são vistas no quadro, o realizador tentando se manter fora deste espaço, de modo a preservar na imagem a mesma “pureza” da tela em branco. Este “meta-filme didático”, como Serra o define, se explicita quando passa então a medir as bordas exteriores deste quadro, retirando dele mesmo a sua régua e mantendo o retângulo inteiramente vazio, enquanto permanece apenas a sua voz off declarando as medidas, num gesto dadaísta, sem propósito, mas evidentemente provocativo em relação aos limites do próprio quadro e não apenas do que se pode representar através dele.

A preocupação de Serra em medir a largura do retângulo, então, afigura-se como um dado absurdo não apenas pelo que é a própria ação posta em cena, mas também pelo fato de um correspondente exato a essas medidas em sua projeção serem um fato improvável, seja ele projetado na tela de cinema ou visualizado em qualquer outra tela ou suporte. É daí, talvez, que advenha um certo “realismo” (ou mesmo “materialismo”) daquilo que faz, um certo testemunho de que, não no filme projetado, mas na sua realização foi assim, era esta parede, eram estas as suas dimensões retratadas – informações que, enfim, não possuem qualquer valor comunicativo, senão apenas em relação ao seu esforço fracassado e inútil, pois “é impossível fazer um filme teoricamente, sem levar em conta o seu material”, como Serra mesmo diz.

Neste primeiro período, cuja produção Richard Serra definirá como “filmes de estúdio” em que usa apenas as próprias mãos [5], em uma redução essencial das ações e da potência dramática que elas carregam, enfatizadas como elemento central do quadro, seus filmes evidenciam características decisivas não apenas à sua própria interpretação do meio cinematográfico, mas a toda uma vertente do cinema moderno e experimental: a compressão em uma única tomada, a brevidade do registro, a contenção espacial do quadro, a fixidez da câmera e a recusa da montagem.

A redução absoluta de elementos visuais se associa também a uma completa dissolução não apenas de qualquer elemento narrativo, como de qualquer figuração ou representação associada ao cinema de maneira geral: dele sobra tão somente o interesse pelo quadro em si, pelo recorte que fundamenta a expressão. Embora isto possa sugerir uma aproximação natural com os filmes mais representativos do “cinema estrutural”, como “The Flicker” (Tony Conrad, 1966) ou “Serene Velocity” (Ernie Gehr, 1970), é preciso notar que, ao contrário destes, o cinema de Serra pouco coloca em evidencia a materialidade do filme em si, bem como outras de suas características plásticas, mas volta-se ao interior de seus próprios procedimentos, dialogando com o seu trabalho escultórico.

Estes primeiros filmes, tal como suas primeiras esculturas, são objetos contidos, fechados em si, com suas próprias leis particulares, dado que tornará distinto conforme Serra se abrir a registros que não estão diretamente vinculados à ação desempenhada pelo artista, mas se voltam a uma ação independente que estaria acontecendo a sua frente. Não há como deixar de relacionar estes filmes seguintes, de duração mais alongada (cerca de 15 minutos), com as esculturas de grande escala que Serra começa a produzir a partir da década de 1970, cuja dinâmica estrutural não se volta mais à si mesma, mas em que as obras se posicionam em relação ao contexto espacial em que estão inseridas, ressignificando as relações ao seu redor, a exemplo de seu “Tilted Arc” (1981). Esta escultura de aço de enormes dimensões, 36 metros de largura por 3,6 metros de altura, havia sido instalada em uma das praça públicas em torno dos prédios da Justiça de Nova York, dividindo esta praça ao meio. Inicialmente comissionada pelo governo, em um programa de estímulo às artes nos Estados Unidos, esta escultura será finalmente destruída no fim da década de 1980, após um longo processo jurídico movido contra sua suposta perturbação visual e paisagística, bem como seu impedimento à livre-circulação de pedestres.

Tilted Arc (1981)

Em “Raildroad Turnbridge” (1976), Richard Serra filma uma ponte com trilhos de trem, que se desloca para permitir a passagem de navios no curso de um rio. Entretanto, não é a partir de um ponto-de-vista exterior que Serra se dispõe a registrar este movimento, mas, posicionando a sua câmera sobre um tripé em cima da própria ponte, é a câmera em si que se desloca, em uma operação na qual o quadro oferece uma profundidade de campo guiada pelas balizas de aço que, ao fundo, se encerram em um novo enquadramento, centralizado, da paisagem à sua frente, representando uma espécie de filme dentro do filme.

“Railroad Turnbridge“, neste sentido, dialoga com este seu trabalho de intervenção urbana: a câmera se dispõe ao que está ao redor, apreendendo um aspecto da realidade por limites bem definidos, mas sem que haja maiores intervenções do realizador sobre aquilo que vemos. Assim, a sua câmera se movimenta não por uma ação que Serra realize no tripé, mas pelo movimento da própria ponte. Enquanto toda a sua estrutura permanece evidente e estática na maior parte do quadro, o que vemos mover-se é, de fato, este enquadramento em seu interior e a paisagem que muda conforme a ponte se desloca. Confirma-se, aqui, a afirmação de Rosalind Krauss sobre a ponte não ser, neste caso, tão somente o objeto do filme, mas principalmente o dispositivo mecânico que permite a mudança nas relações presentes em sua imagem. [6]

“Railroad Turnbridge” (1976)

Diferentemente dos trabalhos anteriores, onde as mínimas relações se resolviam no interior do mesmo plano, Serra aqui recorrerá à montagem, dispondo sequencialmente novas imagens que complementam a ilustração dos movimentos realizados pela ponte ou descrevem a sua própria estrutura metálica. Este procedimento, entretanto, embora ofereça pontos-de-vista distintos, em duração alongada, não encontra no filme uma atribuição estrutural propriamente dita, funcionando muito mais como o encadeamento simples destas tomadas. Nos 16 minutos de “Railroad Turnbridge” afigura-se um caráter dispersivo distinto de toda a concisão dos filmes anteriores citados.

Seu retorno ao filme terá ainda uma última obra, intitulada “Steelmill/Stahlwerk” (1979), realizado junto de sua companheira Clara Weyergraf-Serra, em que assume de maneira mais propriamente dita um registro documental, ao acompanhar a rotina de trabalho de uma usina siderúrgica na Alemanha, onde estava sendo produzida a primeira de suas esculturas utilizando o ferro forjado, “Berlin Block (For Charlie Chaplin)” (1977). Desta vez, entretanto, Serra trata de documentar diretamente o processo de fabricação industrial da escultura dentro da usina, registrando a rotina de trabalho e questionando os seus operários a propósito do que significaria para eles fazê-lo. Novamente, os caminhos entre o seu cinema e a sua prática escultórica se cruzam.

Matheus Zenom

Notas

[1] SERRA, Richard; McSHINE, Kynaston. “Uma conversa sobre trabalho com Richard Serra” in. “Escritos e Entrevistas”. São Paulo: IMS, 2014.

[2] Por tratar-se de uma abordagem bastante distinta dos preceitos explorados em sua produção em película, não discutirei neste texto a sua produção em vídeo, que se apropria e ironiza uma linguagem publicitária e midiática em geral para voltar-se a interesses semiológicos e de contestação social, como era tendência de parte da “videoarte” emergente nos anos de 1970.

[3] Termos que estão absolutamente de acordo com a poética de outro notável escultor, Amílcar de Castro, do qual falamos a respeito em edições anteriores da Revista Limite. Disponível em: https://limiterevista.com/2021/03/30/amilcar-de-castro-concisao-e-materialidade/

[4] SERRA, Richard. “Palestra de Richard Serra” in. “Rio Rounds”. Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1999.

[5] Declarações feitas em um programa da televisão alemã, que apresenta também alguns dos trechos de sua filmografia comentada. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NrUJFiSy1mE

[6] KRAUSS, Rosalind. “Richard Serra, a Translation” in. “Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths”. Cambridge: MIT Press, 1986.

Um poema e duas posturas ébrias distintas

Tal como mencionado em O livro no Brasil de Laurence Hallewell, até 1954 a produção primordial da editora José Olympio consistia predominantemente de textos ficcionais e técnicos. De acordo com o pesquisador de nacionalidade duplamente inglesa e norte-americana, este cenário teria sido modificado pelo êxito comercial de uma publicação que reuniu a obra completa de Manuel Bandeira. Ora, encontramos aqui ao menos uma inconsistência na transmissão dos textos, porquanto, segundo a bibliografia constante na Poesia completa e Prosa seleta (2020)de Manuel Bandeira que foi publicada pela Nova Aguilar, a única publicação de Bandeira pela José Olympio no ano de 1954 foi a sexta edição do livro Poesias (1924), que reuniu praticamente todas as obras autorais do poeta publicadas ao longo dos trinta anos entre a primeira e a sexta edição. Atentemos para o advérbio “praticamente”, porque a publicação da José Olympio não coligiu a obra Mafuá do malungo (1948).

Findada esta digressão, gostaríamos de valorizar a pesquisa de Hallewell na medida em que ele menciona a existência da Coleção Rubáiyát, conjunto de traduções de obras poéticas, sobretudo orientais, que foram publicadas pela José Olympio a partir de 1935. É a obra que inaugura e nomeia esta coleção que nos interessa aqui enquanto objeto particular de pesquisa. Escritos pelo persa Omar Khayyám no início do século XI, os versos reunidos na obra Rubáiyát são marcados por um intenso elogio às sensações e às paixões como maneiras mais legítimas de experimentar o mundo. O vinho e a embriaguez por ele ensejada são também um dos motivos poéticos mais recorrentes ao longo da obra. A edição que compulsamos é a décima quinta, publicada em 1979. O volume em si é de perceptível composição comercial; seu papel, no entanto, é de uma gramatura um tanto quanto mais espessa que o comum para a época. Isto se justifica pela curiosa coleção de ilustrações que circundam os poemas. Estas simulam texturas da tapeçaria persa, o que confere um certo teor artesanal à obra, ainda que sua configuração seja inegavelmente simples.

A tradução dos versos, originalmente persas, foi feita por Octávio Tarquínio de Sousa a partir de traduções francesas e americanas, tal como ele mesmo declara no prefácio à primeira edição. Octávio, motivado talvez pelos textos que utilizou como referência, privilegiou os aspectos semânticos do texto, preterindo assim qualquer rigidez formal, fosse esta sonora ou métrica. Tradução muito distinta foi feita, porventura, por Manuel Bandeira, cujo Rubáiyát conta inclusive com 8 poemas a mais do que a edição da José Olympio. Cotejaremos a seguir as duas traduções a fim de elaborarmos alguma espécie de exegese.

Precisamos apontar que o mesmo poema consta como o décimo oitavo na tradução de Octávio, mas como vigésimo primeiro na de Bandeira. A tradução de Bandeira foi extraída da já mencionada Poesia completa e Prosa seleta.

18

Quando nasci?

Quando morrerei?

Nenhum homem pode evo-

car o dia do seu nascimento

ou prever o de sua morte.

Vem, ó minha deliciosa

amada!

Quero esquecer, na embria-

guez, a nossa incurável

ignorância.

21

Não posso evocar o dia

Do meu nascimento, nem

Dizer quando morrerei.

Que homem saberá fazê-lo?

Vem, minha amada! À embriaguez

Quero pedir que me faça

Esquecer que neste mundo

Jamais saberemos nada.

Enquanto Bandeira optou pela construção em dois quartetos, cuja estruturação métrica dos versos está regularmente distribuída entre heptassílabos e octossílabos, Octávio organizou o poema em quatro estrofes sem regularidade métrica — ao menos esta é a configuração suscitada pela curiosa tipografia do exemplar da José Olympio. Compará-las é um profícuo estudo acerca das seleções estilísticas privilegiadas por cada um dos tradutores. 

A tradução de Octávio de certa forma enaltece uma incerteza eloquente do sujeito lírico, cuja hesitação diante dos dilemas da vida está expressa, dentre outras maneiras, pelos intervalos gráficos entre estrofes e pela maior presença do sinal gráfico da interrogação. Outro sinal gráfico importante na tradução de Octávio é a vírgula, que no oitavo e no nono verso sinaliza o deslocamento sintagmático do complemento nominal “na embriaguez”. Esta mesma embriaguez aparece na tradução de Bandeira não mais como complemento, mas como objeto indireto; consideramos isto digno de nota, porquanto ainda que os termos sejam igualmente integrantes, a organização sintagmática de Bandeira desvia a embriaguez para antes do sujeito – o que lhe confere, de certa forma, uma espécie de privilégio semântico. 

Observemos agora a tradução de Bandeira. Além da já mencionada estruturação notadamente mais formalmente simétrica, é digno de nota que o autor conseguiu expressar um mesmo conteúdo com maior economia estrófica e versificatória. Quais foram os mecanismos empregados para a obtenção de tal resultado? Vejamos: os cinco primeiros versos de Octávio foram transformados em quatro por Bandeira sem que houvesse assim qualquer tipo de prejuízo à função referencial do texto, pelo contrário; a incerteza eloquente parece sofrer também uma inversão: ela se torna em Bandeira uma eloquente incerteza.

Talvez esta tese fique mais clara se atentarmos para o fato de que o poema em Bandeira assume um teor muito mais aforístico do que panegírico. A precisão econômica do discurso é privilegiada em detrimento do ornamento pomposo. Isto de maneira alguma torna a tradução melhor ou pior do que a de Octávio, mas há sem dúvida em Bandeira uma compreensão mais sóbria e pessimista do que teria sido expressado pelo poeta persa da embriaguez. É como se para Octávio a embriaguez fosse sensorial e isso precisasse ficar explícito pela organização plástica dos versos. Bandeira por outro lado parece ter absorvido a embriaguez dos versos como uma espécie de disritmia existencial. Acreditamos que isto fica nítido nos últimos versos. Enquanto Octávio de certa forma nos propõe que esqueçamos a “incurável ignorância” através da embriaguez colocada no meio do sintagma, Bandeira coloca-nos em uma circunstância onde à embriaguez pedimos o esquecimento de que “neste mundo jamais saberemos nada”. Não podemos evitar de confabular acerca da escolha lexical do poeta Pernambucano, que coloca o pronome “neste” e o vocábulo “mundo” assim tão próximos, como se talvez estivesse sugerindo uma espécie de limitação à ignorância universalmente presente na tradução de Octávio.

Yael Carvalho Torres 

Bibliografia:

BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e Prosa seleta. São Paulo: Nova Aguilar, 2020.

CRENI, Gisela. Editores artesanais brasileiros. Belo Horizonte: Autêntica Editora; Rio de Janeiro: Fundação biblioteca nacional, 2013.

GENETTE. Gérard. Paratextos Editoriais. 2ª ed. São Paulo: Atêlie Editorial, 2018.

HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil. 3ª edição São Paulo: Edusp, 2012.

KHÁYYÁM, Omar. Rubáiyát. 15ª edição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.

As flores que desaparecem com o tempo

Percurso de um poema de D.Dinis I entre a trova e a canção popular

Dinis Afonso nasceu em 9 de outubro de 1261 e foi coroado em 1279 como sexto rei de Portugal. Dinis foi filho do rei Afonso III com sua segunda esposa, Beatriz de Castela, duas figuras históricas de suma importância — visto que a primeira lhe legou a Casa Ducal da Borgonha e a segunda uma genealogia oriunda de monarcas ingleses. Na ocasião em que assumiu o trono, Afonso assumiu o título de D. Dinis I. Apesar de conhecido primordialmente como o rei lavrador devido às suas políticas rurais, o monarca foi um homem de notório apego aos artefatos culturais, sendo um dos grandes fomentadores da intelectualidade galega. Fundou, por exemplo, a Universidade de Coimbra, a primeira instituição do gênero no solo que hoje conhecemos como Portugal. É também lembrado por ter sido profícuo trovador. O primeiro intuito deste texto é propor uma possibilidade de leitura para uma de suas cantigas de amigo.

Ai flores do verde pino

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi há jurado?
Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss’amigo,
e eu bem vos digo que é sã’e vivo.
Ai Deus, e u é?

Vós me perguntardes polo voss’amado,
e eu bem vos digo que é viv’e são.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é sã’e vivo
e seera vosc’ant’o prazo saído.
Ai Deus, e u é?

E eu bem vos digo que é viv’ e são
e seera vosc’ant’o prazo passado
Ai Deus, e u é?

O primeiro elemento que nos salta aos olhos é a homogênea e simétrica distribuição dos metros: a canção se divide em oito estrofes de três versos cada; nas quatro primeiras estrofes todos os dois versos iniciais de cada estrofe são decassílabos que terminam em rima toante. Já nas duas estrofes seguintes o que acontece é uma espécie de cavalgamento, onde o primeiro verso se apropria de uma das sílabas métricas do verso seguinte. Por fim, as duas últimas estrofes têm seus dois versos iniciais regularmente constituídos por eneassílabos. 

Nas estrofes I e II o sujeito lírico dirige perguntas melancólicas às flores aqui personificadas como seres capazes de responder às súplicas que lhe são feitas. Aparentemente, o que interessa ao sujeito lírico é descobrir o paradeiro de seu amigo/amado. Nas estrofes III e IV as perguntas do sujeito são permeadas por uma incerteza relativa à reciprocidade de seu afeto por parte de seu amigo/amado, cuja ausência poderia ser indício de falsas promessas, engodos.

Encetando a segunda parte narrativa do poema, as estrofes V e VI promovem uma modulação no ritmo construído até então, através do recurso já mencionado do cavalgamento, que faz com que o primeiro verso de cada estrofe seja um hendecassílabo suplantado pelo eneassílabo que o sucede. Aqui o interlocutor, que pela lógica interna do poema supomos serem as flores, responde perguntas que foram feitas pelo sujeito lírico das quatro primeiras estrofes. Declaram assim as flores: o amigo/amado encontra-se são e vivo.

Nas estrofes VII e VIII, a reutilização de versos das estrofes anteriores reforça o bem-estar do amigo/amado, mas dessa vez adicionando a informação de que tal pessoa regressará antes mesmo do que havia sido combinado. É curioso notar que nas estrofes V e VII também ocorre rima toante em seus respectivos primeiros dois versos, já nas estrofes VI e VIII, se ignorarmos o refrão que se repete ao longo de todo o poema, o que ocorre são rimas interpoladas, criando assim uma distância entre o amado e o passado, manifesta também pela dimensão rímica.

Se tomarmos a repetição do refrão de cada estrofe como um indício de imobilidade, não se torna um absurdo supor que os eventos do texto se passam em um momento não prolongado, tal interpretação cristaliza a hipótese de que toda a aflição do Sujeito não passa de ansiedade. O poema é um exemplo das cantigas de amigo, onde era de costume a utilização de uma voz feminina a fim de que fosse expressada uma situação concernente a um afeto tensionado pela ausência do amado. Este é tido como um dos melhores exemplos do gênero, e por isso justifica a posição até hoje renomada de D.Dinis I na história da Literatura Ocidental.

Muitas interpretações musicais já foram feitas a partir do texto supracitado. Confessamos, contudo, que a prática mais comum é a de construções harmônicas e rítmicas que tentam de certa forma emular a ambiência e a prosódia dos tempos de D. Dinis. Nos chama particularmente mais atenção a performance de José Mário Branco, transcrita abaixo:

Ai flores, ai flores, ai flores, ai flores do verde pino,
Se sabedes novas, se sabedes novas do meu amigo?
Ai Deus, e u é?

Ai Deus, e u é?

Se sabedes novas, se sabedes novas do meu amigo?
Aquel que mentiu, aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai Deus, e u é?

Ai Deus, e u é?

Ai Deus, e u é?

Ai Deus, e u é?

O prestigiado músico português fez algumas modulações sonoras e textuais que consideramos deveras simbólicas. Em primeiro lugar, ele duplicou expressões como “Ai flores” e “se sabedes novas”. Acreditamos que isto aprofundou a dimensão ansiosa, tornando-a de certa forma um tanto quanto desesperada. Diferentemente de outros intérpretes, José também fez do refrão algo muito mais potente quando o performou não apenas repetindo o conteúdo lírico, mas introduzindo também uma flauta que harmoniza com a voz. Esta flauta, doce e melancólica em sua melodia, coaduna com o dedilhado feito no violão — instrumento que nas demais partes é tocado de maneira percussiva com rastilhos alternados para cima e para baixo. Em suma, acreditamos que a cantiga, ao ser apropriada por José, adquiriu uma dimensão paroxística marcada por breves intervalos onde o sujeito abdica do desespero em nome da completa entrega à sua situação absurda. Dizemos “absurda” sem medo, porquanto aqui foram preteridos os versos nos quais estão originalmente inseridas as respostas das flores. A canção denota assim, através da ausência, uma natureza que já não é mais capaz de consolar o desespero humano.

Yael Carvalho Torres 

Referências:

DOM DINIS (1261 – 1325). modo de usar & co., 6 de maio de 2013. Disponível em: http://revistamododeusar.blogspot.com/2013/05/dom-dinis-1261-1325.html Acesso em: 18 de maio de 2022.

Olhemos para os pôsteres poloneses

Reflexões sobre o fazer artístico a partir da “Escola Polonesa de Pôsteres”

A real perda da transferência do meio de divulgação de cartazes das ruas para o meio virtual (mesmo que se possa argumentar o quão análogos são um do outro, ou quanto um está em vias de superar o outro) é a perda de sua qualidade de intervenção urbana. Hoje nas ruas não se vê mais espaço para a cultura do poster, tão presente e até indispensável para outros momentos históricos: do conflito armado ao do-it-yourself contracultural.  O espaço agora é o da divulgação instantânea: o post, o tweet, as redes sociais e o clean design. O poster deixa de ter uma função clara e objetiva e pode agora tomar um novo lugar. Entendamos um caso histórico para que seja melhor exemplificado.

A década de 50 foi um momento de condições especiais para que florescesse no contexto específico da cortina-de-ferro uma forma de arte também muito específica. Um novo plano econômico da União Soviética previa um alto investimento na distribuição e produção cultural. Filmes, espetáculos teatrais e circenses, apresentações musicais. Foram construídos teatros, estádios e casas de ópera. Para isso, o Governo comissionava mais e mais pôsteres de divulgação dos eventos, delegando sua censura à comitês estatais que julgavam de confiança e expertise.

Com o incentivo certo e a ausência da competitividade da economia capitalista, o pôster deixou de servir à lógica da publicidade, perdeu sua função na venda de produtos e teve a pista livre para explorar seu potencial artístico. Com a “vigia” estando mais distante do núcleo central do Governo Soviético, houve um grande relaxamento da censura na área.  Havia uma fatiga da burocracia soviética e os censores tomaram uma posição mais amigável com os artistas. Assim, claras alegorias políticas e ácidas críticas ao Estado passaram incólumes pela (não tão) ingênua censura.

“Le Martyre des Chrétiens au Palais de Néron” de Jan Styka (ca. 1900)

Alguns valores culturais foram essenciais para que esta ebulição ocorresse neste recorte geográfico. É possível notar tempos antes um talento dos poloneses com a forma: “O Martírio dos Cristãos no Circo de Nero” de Jan Styka (1858-1925) tem clara influência da art nouveau, mas é ousado no seu estilo bruto, com formas fluidas e uma tipografia que se mistura totalmente como parte da composição artística. A Polônia, após tantas invasões, ataques e perseguições, parece ter formado uma crise identitária sobre a própria cultura, assim tendo uma necessidade de fortalecer suas imagens, seus símbolos e tradições. É uma das teorias, inclusive, para explicar o porquê de uma parcela tão significativa do país europeu se mantém fortemente católico.

Pôster de “Um Corpo que Cai” por Roman Cieslewicz (1963)

Com estes fatores em mente, é mais compreensível como “Um Corpo que Cai” (1958), o classudo e rocambolesco filme de suspense dirigido por Alfred Hitchcock, inspirou o pôster expressionista de Roman Cieslewicz, retratando uma agonizante caveira vestida em um terno e com um colorido alvo na testa. A verdade é que, para os artistas do que se convencionou chamar “Escola Polonesa de Pôsteres”, pouco interessa representar o filme visualmente. A prioridade é sempre de formar uma perspectiva subjetiva e pessoal do artista sobre aquela obra, criando assim uma peça tangencial, mas independente.

E assim foi o caso dos pôsteres de “Os Pássaros”, “Narciso Negro” ou “Godzilla vs Hedora”, em que os artistas utilizavam ousadas experimentações, tipografias feitas à mão e metáforas visuais para transformar filmes comerciais internacionais em verdadeiras obras de vanguarda. Além, é claro, de contribuir fortemente para a formação de uma estética própria para suas produções nacionais. É inconcebível pensar um filme de Andrzej Wajda sem o pôster de um Jan Lenica ou um Wojciech Fangor.

Pôster de “Os Pássaros” por Josef Vyletal (1970)

Os pôsteres poloneses foram um crescente sucesso nas décadas que se seguiram, preenchendo as paredes cinzas das construções brutalistas com cores vibrantes e rabiscos expressionistas, fazendo com que a população, sedenta por cor, rapidamente “surrupiasse” os cartazes para pregá-los em algum ponto central de sua sala-de-estar. Uma verdadeira invasão ao espaço público. O pôster de Waldemar Swierzy para o filme “Blow Up” (1966) acumulava multidões de pedestres confusos que se aproximavam e afastavam dos murais para observar os pontinhos coloridos transformarem-se em uma mulher pop-art. Viraram uma preciosa exportação cultural. Exposições por diversos países foram organizadas em museus e galerias, aumentando o orgulho soviético e, consequentemente, o apoio estatal. O pôster, inevitavelmente intrínseco à sua época, é uma cápsula do tempo. E assim o movimento dissipou-se em meados dos anos 90, cristalizando-se como história e tendo como reminiscência possível a homenagem e a referência.

Pôster de “Blow Up” por Waldemar Swierzy (1968)

A verdadeira relevância deste movimento vai muito além do estilo, ele se integra e acrescenta à um antiguíssimo sonho de artistas idealistas através da história:  uma integração tão profunda entre as artes e a vida que todos os processos estariam embebidos dos mais ricos espíritos criativos. Uma pesquisa que consumiu a vida de todos os Blaue Reiters do expressionismo alemão, mas não antes de coletarem algumas esculturas babilônicas, pinturas naif e sons da natureza profunda; tesouros espirituais. Os expressionistas alemães seguiam, sim, uma lógica diferente da destes artistas soviéticos que aqui pensamos, mas funcionam como um exemplo ideal desta busca.

Olhemos para a arte destes leste-europeus não com a curiosa visão do arqueólogo, mas com o faminto apetite do artista. Um fenômeno desses é tão ímpar na história moderna porque depende de algo que foi tão raramente conseguido: uma liberação da arte de qualquer lógica mercadológica. André Breton e Leon Trótski retomam, em seu texto “Por uma arte revolucionária independente”, uma ideia de Marx: “O escritor deve naturalmente ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas não deve em nenhum caso viver e escrever para ganhar dinheiro.” É irônico que este texto seja um grande ataque ao regime soviético, enquanto é nele que foi possível este cenário que descrevo. Evidentemente, a ditadura facilitou para este grupo de artistas devido aos outros fatores que já comentei aqui, quando o mesmo não aconteceu para tantos outros, e muitas das críticas feitas por Breton e Trotsky são muito válidas.

A questão é que, deixando de ser meramente um produto, uma obra artística como um filme não tem mais suas barreiras delimitadas pelo tempo do início e do fim da exibição, está livre para explorar seu potencial múltiplo. Por ser vista de forma majoritariamente comercial, o cinema ainda tem uma imaturidade perante à outras artes, que já desafiaram esse limite há muito. Mais importante que o fechamento, é o processo, processo eterno que sempre se desdobra em novas existências.

Um interessante exemplo de obras que se utilizam desta liberdade em relação aos filmes são as pinturas que Roberta Pedrosa fez utilizando “O Cavalo de Turim” (Béla Tarr, 2011) como referência. Misteriosas pinturas de giz pastel que parecem menos uma imagem do longa e mais uma impressão retinal da pintora. Deixo aqui as palavras da própria:

“Como pelo menos desde 2019 eu vejo praticamente um filme por dia, eu sinto que essas imagens acabam por fazer parte do meu repertório visual, tanto quanto os objetos e paisagens reais que eu observo no cotidiano. Há uma grande diferença em desenhar a partir de uma fotografia (ou de um frame) e desenhar uma situação de observação. A fotografia está “resolvida” de certa maneira, parada, a lente da câmera já previamente traduziu os ângulos daquela imagem. Não quero que necessariamente tenha uma relação forte entre o desenho e o filme, que se procure uma relação que eu acho que não existe, para além de uma fascinação com um frame específico.”

“O Cavalo de Turim” por Roberta Pedrosa (2020)

A relação das pinturas de Roberta com o filme não é de significação direta ou referência; a pintura como um fruto da relação da artista com o filme, seja ela qual for.

Vinícius Dratovsky

Referências

Dorota Kopacz-Thomaidis. The Polish School of Poster.

André Breton e Leon Trótsky. Por uma arte revolucionária independente.

“The Straight Story” (1999)

Sobre o filme de David Lynch de 1999

“The Straight Story” é um caso único na filmografia de David Lynch. Com roteiro de Mary Sweeney e John Roach, é o único de seus longas-metragens que, para além de reproduzir uma história real, se atém estritamente a uma premissa realista, levando-a ao cabo da sentimentalidade implicada na trajetória de sua personagem principal.

A princípio, acompanhamos os movimentos de Laurens, Mississipi, pacata cidade do meio-oeste americano onde Alvin Straight (Richard Farnsworth), idoso de saúde deteriorada, vive com sua filha Rose (Sissy Spacek), mulher de meia-idade cujo comportamento disfuncional a princípio nos sugere uma dependência paterna. A partir deste pequeno núcleo familiar, de fundo comovente, somos apresentados à vida comum da cidadezinha, com seus tipos caricatos, que não apenas caracterizam o que é mais propriamente o elemento cômico do filme, mas também justificam em certa medida o “Walt Disney presents” das cartelas iniciais, algo impensável em outros títulos de Lynch, que surpreendem o espectador desavisado. Não se trata de uma produção dos estúdios Disney, que apenas compraram os direitos de sua distribuição após a exibição inicial do filme no Festival de Cannes de 1999, mas é significativo o seu interesse e a sua “apresentação” para o tipo de história que veremos a seguir.

O que o filme narra é a viagem de Alvin, que, após receber a notícia do infarto de seu irmão, deve atravessar o estado do Iowa e chegar até a casa deste no Mississipi, para reencontrá-lo após dez anos de inimizade. A narrativa desta travessia, por si mesma, é acrescida de certa caráter épico de tons absurdos conforme a cegueira de Alvin não o permite dirigir um carro comum, implicando por sua própria decisão em percorrer todo o caminho a bordo de um cortador de grama dirigível. Sua viagem levará semanas, oportunidade para que Alvin, aos 73 anos e em fraca saúde, repasse os eventos mais significativos de sua vida e tenha, possivelmente, a sua última grande aventura.

Não nos é claro, quando Alvin começa a fazer uma série de operações de carpintaria em seu jardim, o que ele pretende fazer. Apenas quando, finalmente, apronta o seu cortador de grama, temos a mesma surpresa de sua filha Rose, ao perceber que Alvin o transformou em um veículo de transporte. Somente então, pouco a pouco, nos acostumamos com a ideia, desconfiando de sua possibilidade, assim como os outros moradores da cidade, que desacreditam de sua empreitada. Após uma primeira tentativa, ele fracassa: seu cortador é velho demais e não suporta nem mesmo o início do seu trajeto. É rebocado de volta à cidade, entrando pela mesma rua principal da qual havia saído, aos olhos dos comerciantes e amigos que o haviam desencorajado antes. Mas Alvin continua persistente e, com as suas economias, compra um novo cortador de grama, mais potente, voltando novamente para a estrada.

O trajeto de Alvin é frequentemente representado da mesma forma, com o seu pequeno veículo percorrendo o acostamento, enquanto atravessa paisagens rurais e é ultrapassado por automóveis em alta velocidade. Sempre a mesma cena e sempre o mesmo distúrbio que marca a lentidão de Alvin e a velocidade de todos os outros passageiros, em uma série de pequenas vinhetas, esquetes cômicas que pontuam pouco a pouco a sua viagem. Primeiro, é um caminhão que levanta um vento forte que leva embora o seu chapéu; depois, é um carro que passa buzinando; mais tarde, uma mulher que atropela um veado logo a sua frente; ainda, ao final, a surpresa e o maravilhamento de Alvin frente a uma quantidade enorme de ciclistas que passam por ele, sem que possa acompanhar cada um com os olhos.

Nos encontros que tem ao longo dessa trajetória e nos diálogos que estabelece com as poucas pessoas com quem se comunica é que se nota o caráter mais propriamente folclórico dessa narrativa. Pois Alvin, sempre contido, se mostra um sujeito de sabedoria frente a quem quer que fale, uma sabedoria popular, de experiência, ao que se soma a camaradagem sua e daqueles que encontra pelo caminho. Nestes momentos, não é raro pensar em certo lirismo, associado a noções presentes em Robert Frost e na poesia americana de tradição mais popular, que trata do respeito entre os homens e a consideração da vida na natureza (é impossível não pensar, a partir da caracterização de sua filha Rose, na personagem disfuncional e patética de “Death Of A Hired Man”, de Frost).

Em grande medida, “The Straight Story” possui um caráter “contemplativo”, explorado sistematicamente por momentos que descrevem a lentidão de sua travessia, que fazem passar o tempo através de imagens aéreas das paisagens que percorre, do nascer e do pôr do sol, do trabalho no campo e outras visões pitorescas. Em outros filmes, este sentimento “poético” associado à natureza poderia se apresentar como um dado decorativo, em uma associação banal entre a natureza e um caráter transcendente. Mas Lynch não filma estes planos estaticamente, não faz com que o filme simplesmente se detenha a exibir a “beleza” de qualquer paisagem particular. Ao contrário, dota sempre estas imagens de um movimento e de um caráter reiterativo, explicitado pela música-tema que as acompanha repetidamente, como um refrão ao longo do filme.

Não há um sentido de transcendência na natureza apresentada; há uma contemplação, pode-se dizer, mas que está associada ao trabalho e a paisagem onde estas figuras habitam, nunca como um refúgio ou qualquer ideal idílico. É sua realidade mais imediata que se aponta e, neste sentido, Alvin não está a caminho de descobrir a si mesmo, de encontrar fatos novos, mas de acertar as contas com o seu passado, seja com os fatos vividos ao longo da Segunda Guerra, seja mais imediatamente com o irmão querido de quem se afastou. Mesmo que sua viagem tenha um objetivo bem definido, rumo ao destino apontado a princípio, ela é constantemente acompanhada da incerteza deste encontro, bem como das reflexões que o levaram até ali, em um momento tardio da vida.

Neste sentido, este é um filme que trata de maneira singela os fatos prosaicos, dotando os elementos mais realistas de uma significação poética discreta e sutil, mas profunda. Pois, justamente, Alvin Straight é uma personagem sólida, que possui uma dureza intrínseca e jamais age de modo condescendente com sua filha, Rose. No retrato deste pequeno universo, do mundo pacato, rural, do midwest americano, Lynch, Sweeney e Roach também não se dispõem a um olhar sociológico, a querer desvendar esta realidade: ela existe, está ali e, principalmente, são os autores deste filme que se inspiram por esta sociedade, isentando-se de uma atitude que deseja impor a sua própria visão sobre ela.

O título original “The Straight Story” (traduzido em português como “Uma história real”) é adequado para tanto: não se refere simplesmente à “história de Alvin Straight”, mas à “história direta”, à narrativa sem os desvios e distorções característicos de David Lynch. É, justamente, através das transições, na descrição da passagem de tempo, nas caracterizações cômicas do princípio do filme, nas entrelinhas de sua construção geral, no encadeamento bem estabelecido que intercala os encontros com as vinhetas na estrada, que se denota o grau de artesanato que é aplicado a este filme, distinto de uma narração comum. Atuando como um eficiente realizador, Lynch se entrega de maneira mais comprometida ao realismo do que em qualquer caso de sua filmografia, narrando uma história no qual os seus traços de autoria se imprimem somente de modo secundário – autoria que aqui deveria ser atribuída a Mary Sweeney, por quem o filme fora concebido, roteirizado, produzido e editado.

Após diversas interrupções que tornam a sua viagem mais lenta conforme mais se aproxima de seu objetivo, Alvin finalmente encontra o seu irmão. Quando já muito próximo, seu automóvel pára por uma última vez, prestes a que o encontro aconteça, repercutindo o drama de sua antecipação. Em um último esforço, contando com a ajuda de mais um desconhecido que encontra pela estrada, Alvin é capaz de seguir e estaciona frente da pequena casa do irmão, tão ansiado e jamais visto, chamando pelo seu nome, Lyle, e esperando alguns poucos segundos para receber uma resposta, segundos nos quais tememos que ele não se encontre mais ali. Logo, Lyle responde, saindo à varanda; e, para nossa surpresa – ou, simplesmente, para a minha felicidade, confesso aqui –, quem atravessa a porta e responde aos chamados é Harry Dean Stanton, figura tão carismática, cuja mera aparência e gestual implica toda a profundidade necessária a sua personagem, como alguém que também conhecemos e nos é familiar.

Ambos se sentam na varanda e o irmão, observando o moedor de grama em seu jardim, pergunta a Alvin: “Você veio até aqui com isso?”, ao que o outro confirma. A seguir, é apenas o olhar e a sua consideração a propósito desta travessia o que mais profundamente comunica o sentimento deste reencontro. Ambos permanecem sentados lado a lado, enquanto a câmera se perde por entre os dois e tudo acaba. Depois das outras conversas, nenhuma outra palavra poderia comportar a importância deste momento; nenhuma informação a mais é dada a propósito desse irmão ou da relação entre os dois, assim como nada mais é dito. É tão significativa a sua trajetória que este encontro final se torna, por sua vez, “pequeno” frente ao que lhe precedeu: é um clímax dramático, é claro, e é o clímax desejável, pois ele também mostra a grandiosidade do caminho para chegar até ali. Este silêncio faz ver, de maneira mais profunda, qual é também o feito alcançado por este filme, pois a falta de necessidade de palavras mostra o quanto a construção que levou ao encontro destas duas personagens é ainda mais importante do que este encontro em si, sendo este apenas o desfecho de algo muito maior, transposto com uma humildade desconcertante, fato que talvez mais surpreenda em todo este filme.

Em “The Elephant Man”, Lynch já havia comprovado de que maneira era um diretor capaz de assumir um projeto encomendado, de realizar de maneira convincente e profissional cenas que exigissem de si um caráter de menor invenção, em consideração ao que fora sua experiência em “Eraserhead” (1977) ou será em filmes mais tardios, em que a sua faceta surrealista se torna mais evidente. No entanto, é com surpresa, ainda hoje, que se assiste “The Straight Story” como um filme mais puramente despido de qualquer intenção autoral, sob um comprometimento único com o drama narrado. Não houve outro filme assim em sua filmografia, nem espera-se que haja. Em “The Straight Story”, Lynch entregou um filme notável, “menor” para aqueles que procuram o que há mais quintessencial no seu cinema, mas cuja maior força reside em ser um trabalho único, que ilumina outros aspectos de sua carreira artística; um filme que não deve se repetir e está feito. Nele encontram-se os aspectos mais populares da cultura americana que correm de maneira latente por trás de seus filmes mais fantásticos e que são, possivelmente, o seu próprio fundamento de existência, a sua matéria real.

Matheus Zenom

“Benedetta” (2021): do corpo ao espetáculo

No cinema de Verhoeven, o corpo – seus prazeres, sua materialidade e fragilidade – está sempre em primeiro plano, sempre reagindo ao ambiente social em que está inserido. Seja o corpo de uma freira na Idade Média (e de tantos outros sujeitos à peste), de uma dançarina de Las Vegas, de soldados em uma batalha interplanetária (e fascista), de um revolucionário interplanetário preso nas atividades mundanas de um operário, de um ciborgue na polícia de Detroit, de uma femme fatale escritora de romances policiais em São Francisco, de uma judia durante a Segunda Guerra Mundial, de jovens motoqueiros na Holanda ou mesmo um corpo invisível, resultado de um projeto científico. Não por acaso, o elenco será um aspecto fundamental de seus filmes: a simples constituição física de Schwarzenegger, Peter Weller, Sharon Stone, Elizabeth Berkley, Caspar Van Dien, Denise Richards, Isabelle Huppert e, agora, Virginie Efira (Benedetta) e Daphne Patakia (Bartolomea), dizem algo sobre suas personagens antes de qualquer atuação. Em Benedetta (2021), isto se torna um dado essencial, uma vez que conta-se a história desta jovem que, desde a infância, é prometida a Jesus e tem seus prazeres carnais conscientemente reprimidos sob o discurso que “seu corpo é seu pior inimigo”. 

O filme segue basicamente duas linhas narrativas, que irão se entrelaçar, aquela do relacionamento amoroso entre a freira Benedetta e a recém chegada Bartolomea, e a sucessão de supostos milagres executados pela primeira, que serão questionados por algumas das autoridades do convento de Pescia e estimulados por outras (por interesses políticos que atravessam todas as decisões do filme), culminando em seu julgamento pela Igreja. Então, as duas linhas serão enfim reunidas quando Benedetta é condenada à fogueira por blasfêmia, menos por seus ditos falsos milagres do que por suas relações sexuais lésbicas. Pode haver ainda uma terceira linha, que independe das ações dos personagens e avança paralelamente, aquela da peste que se alastra pela europa e irá, ao final, chegar a Pescia através, justamente, do núncio que vem à cidade para julgar Benedetta.

A começar, é importante frisar que o filme conta a história de Benedetta, como explícito no título, e não apenas de seu caso com sua amante Bartolomea – evento certamente crucial para a narrativa. Quando, ainda criança, Benedetta é ofertada para o convento – numa transação cujo caráter monetário Verhoeven faz questão de evidenciar, como de praxe em sua filmografia –, a primeira coisa que deve fazer é retirar seu belo vestido azul e vestir a roupa grossa e desconfortável de sua nova vida. Ao comentar seu desconforto com a freira que lhe veste, esta afirma ser proposital e lhe revela um dedo de madeira em sua mão, colocado no lugar do membro perdido: “Gostaria de ser toda feita de madeira”, ela afirma, para que não sentisse prazer algum, para não sentir seu corpo – mais tarde, tal afirmação ganhará outro sentido quando Bartolomea talha uma estatueta da Virgem Maria em formato de pênis, como um dildo, para usar em Benedetta: a madeira, material supostamente neutro e insensível, torna-se veículo para o prazer. Desde o princípio, assim, a personagem estabelece não tanto o corpo como inimigo, mas o sofrimento deste como caminho necessário para alcançar o divino – é justamente isto o que um padre lhe aconselha no confessionário.

Dedo de madeira da freira sendo mostrado à Benedetta

Ao contrário do que poderíamos supor, no entanto, Benedetta não chega no convento contrariada. Mesmo quando criança já é assiduamente religiosa e sabe da promessa que sua mãe fez de ofertá-la ao convento assim que possível, após sua quase morte quando bebê. Depois da troca de vestidos, a pequena estatueta de madeira de Nossa Senhora que carrega, que sua mãe lhe deu, lhe é retirada, e logo após ela presenciará seu primeiro “milagre” quando vai rezar junto a uma grande estátua da mãe de Jesus – agora, sua mãe, como a mesma declara – e esta cai sobre ela, sem lhe ferir. A menina chega a mamar no peito exposto da estátua, primeira cena que dispõe os excessos – ora incômodos, ora cômicos – do filme; em termos narrativos, ainda que de modo demasiadamente literal,  o ato indica tanto a substituição de sua mãe verdadeira por Nossa Senhora quanto a orientação sexual da personagem, além de sua relação libidinal com as figuras religiosas.

A cena será, também, uma introdução a uma série de confusões que Benedetta parece fazer em relação aos limites entre o divino e o mundano, confusão que parece nascer da promessa de que ela é “esposa de Jesus” – e, de fato, quando a aceita no convento, a abadessa Felicita (Charlotte Rampling) compara a transação com um dote de casamento. Em suas visões de Cristo, que começam a surgir no filme logo que a personagem cresce, este geralmente é representado como um belo cavalheiro lhe socorrendo enquanto sua esposa. Estas confusões, provenientes dos mandamentos da Igreja, se apresentam como dois caminhos que Benedetta poderá seguir: o do sofrimento ou o do amor. Longe de serem meramente metafísicos, estes serão manifestados em suas versões concretas, dor e prazer, seja na doença no seio de uma freira penitente, seja na peste, seja nas experimentações sexuais entre Benedetta e Bartolomea ou na masturbação da primeira, os gritos de dor se aproximam dos gemidos do gozo, assim como o dildo de madeira esculpido por Bartolomea se aproxima da ferramenta de tortura fálica a qual ela será submetida posteriormente. 

Ferramenta de tortura fálica

Benedetta irá, assim, seguir tortuosamente entre estes dois caminhos, que se provarão mais complexos do que se poderia supor: o sofrimento deve ser auto-inflingido e o amor apenas ao próximo. Há um momento em que Benedetta ordena que Bartolomea enfie a mão na água fervente para resgatar as bobinas da máquina de costura que esta deixou cair em um caldeirão. Quando questionada pela abadessa do porque de demandar tal ato da companheira – seria um castigo? vingança? – ela não sabe responder ao certo. “Você não conhece seus sentimentos?”, pergunta então Felicita; “pelo visto, não”, Benedetta responde. Mais adiante, a confusão se estenderá, mesmo, às intenções e crenças da protagonista: o que deseja ou acredita, afinal? Esposar Jesus ou tornar-se (como) ele? Parte desta confusão é o que há de mais interessante no filme; outra parte é o que o enfraquece. Há um limite que é levemente ultrapassado nesse sentido, que acaba tornando a questão aberta demais, com mais possibilidades do que o filme parece dar conta, diferente das narrativas complexas mas concisas de Robocop ou Showgirls.

Ao longo do filme, outros diversos discursos (com frequência, contraditórios) serão proferidos para e pela jovem, buscando justificar e compreender o divino e o mundano e, mais precisamente, a encenação do sagrado no mundo profano – é, neste sentido, por suas ambiguidades, por sua teatralidade, que a religião católica se prova um palco perfeito para tal situação. Aliás, não apenas por e para Benedetta, os discursos éticos e religiosos e a forma como são torcidos e distorcidos permeiam o filme como um todo – como um personagem faz questão de apontar em dado momento, a palavra escrita é fundamental para o catolicismo mas os atos divinos nem sempre obedecem às escrituras.Se Benedetta está confusa é porque os mandamentos da Igreja são, de fato, confusos. Não involuntariamente confusos, mas ambíguos, e não por acaso ocasionaram e ocasionam tão distintas interpretações e discussões (de embates filosóficos a embates bélicos). E isso provém da própria natureza do catolicismo: Maria, a virgem que engravidou, e Jesus, meio homem, meio Deus, meio morto, meio vivo, meio carne, meio espírito – provavelmente o que interessa tanto Verhoeven na religião e, mais especificamente, na figura de Cristo, sobre quem já afirmou desejar fazer uma biografia. Desde Spetters, o diretor já havia demonstrado seu interesse pelo aspecto teatral da religião – na cena em que o jovem cadeirante vai em um culto evangélico – e em Robocop já havia evidenciado seu interesse pela narrativa bíblica católica: Murphy/Robocop é retratado como uma espécie de Jesus, um herói massacrado e assassinado que renasce imortal e anda sobre a água. 

Não há verdades em Benedetta, há pessoas em situações extremas agindo como acham melhor diante de horrores terrenos. A maioria dos personagens mente; até mesmo a freira Christina (Louise Chevillotte), filha da abadessa, que morre em nome daquilo que acreditava ser a verdade, tentando desmascarar o que acredita serem mentiras por parte de Benedetta, mente afirmando que viu esta forjar seus estigmas, quando antes confessa para sua mãe que não havia visto nada, apenas suposto. É uma mentira justificada, em nome de algo maior (não no céu, não depois, mas o bem-estar do convento, aqui e agora), assim como a abadessa Felicita negocia tão friamente as finanças do convento pelo bem deste, e o presbítero local encoraja a crença nos supostos milagres de Benedetta para atrair atenção à pequena cidade de Pescia – citando o exemplo de Assisi, uma cidade relativamente insignificante antes de São Francisco.

No final do filme, Felicita ouve de Benedetta que “ela [Felicita], que nunca acreditou em Deus, agora se encontra sozinha diante do terror da morte”. Felicita, com pesar, afirma que “Ele” nunca falou com ela como fala com Benedetta. Não se trata de qualquer tipo de ataque do filme à religião ou de questionamento da fé, e sim de uma relação pessoal de uma personagem com sua fé ou falta de uma. O mesmo vale para o núncio (Lambert Wilson) que, ao que tudo indica no filme, cometeu atos certamente condenáveis para um homem em sua posição dentro da Igreja. Mesmo ele, em suas últimas palavras, pergunta à Benedetta se irá para o céu ou para o inferno, ao que esta afirma que o viu no primeiro: “você mente até o final”, ele retruca, sabendo que irá para o inferno, sabendo que seus atos ultrapassaram o limite do perdão.

Assumir que dentro de uma instituição das dimensões da Igreja católica, no séc. XVII, não haveriam indivíduos preocupados com questões financeiras e políticas dessa instituição ou mesmo com seus interesses próprios seria absurdo e certamente não condiria com o “baixo-materialismo” de Verhoeven [1]. Ainda que se trate de religião, a Igreja é uma instituição terrena, regida por homens, com suas leis e hierarquias internas e humanas [2], com seus meios materiais, suas construções e financiamentos. Os filmes de Verhoeven raramente assumem um tom de crítica; se esta acontece é através de um processo mais “natural”, onde se mostra o funcionamento das coisas, o comportamento das pessoas. A situação em que estas pessoas se encontram, afinal, diante dos horrores da Idade Média não é muito diferente do final da Segunda Guerra Mundial retratado em Zwartboek (2006), onde durante este período de absurdos e relativismo moral cada um dos personagens – judeus, alemães ou holandeses, soldados da SS ou da Resistência, espiões ou secretárias – tenta salvar a própria pele, e manter ou não seus próprios valores, frequentemente jogando para os dois lados até o último segundo possível. O filme não os julga, cabe a nós julgá-los.

Ainda assim, Benedetta é um filme permeado por atos blasfemos, como foi, supostamente, a vida de Benedetta Carlini, visto que o filme é baseado em fatos reais [3]. E se o que faz é certo ou errado, como em Zwartboek, cabe ao espectador dizê-lo, atitude raríssima de se encontrar em qualquer filme contemporâneo – mais rara, sobretudo, porque não é uma decisão fácil para o espectador, pois as atitudes de Benedetta são permeadas por ambiguidades que tornam o nosso engajamento com ela, enquanto protagonista, mais complexo. Afinal, nos encontramos “torcendo” por uma protagonista que mente ao longo de todo o filme, cujos motivos para tal comportamento não são claros; temos tanto sugestões de que a personagem seria motivada pelo poder, para proveito próprio, quanto pela loucura.

O talhamento da estatueta em forma de dildo é, certamente, uma blasfêmia, mas antes de uma blasfêmia religiosa, ele é uma blasfêmia afetiva, pessoal (e com conotações freudianas), para Benedetta: aquele era o único objeto que ela leva para o convento quando criança, o último vestígio (junto ao vestido com que chegou ao convento) de sua vida antiga, mundana, e era, sobretudo, um presente de sua (antiga) mãe. Mas esta blasfêmia está inserida na narrativa, faz parte de sua construção no filme; não se trata de Verhoeven talhando uma estatueta, mas de uma personagem envolvida em uma situação absolutamente peculiar e bizarra. É, certamente, um excesso, como tantos outros do filme – Bartolomea cagando (com direito a efeitos sonoros) ao lado de Benedetta, a mulher grávida espirrando leite para fora de seus seios, as visões computadorizadas e ultra-violentas de Benedetta, as imagens dos doentes de lepra ou as cenas de sexo – cenas pitorescas, mesmo caricatas, condizentes com um humor medieval, que retiram qualquer pretensão à seriedade dos temas tratados no filme.

Em alguns aspectos o filme lembra “Portrait de la jeune fille en feu” (2019), de Céline Sciamma, também um drama lésbico de época (o que Benedetta ameaça ser, mas essencialmente não é). Neste, temos diversas pequenas referências a práticas contemporâneas, como quando as personagens fumam maconha ou quando há um aborto. As duas práticas não são anacrônicas a sua época, mas parecem inseridas no filme de modo a se referir às implicações contemporâneas que acarretam, numa espécie de declaração de valores por parte de Sciamma. O filme olha para esse amor proibido com olhos de hoje, buscando traços do feminismo do século XXI no século XVIII. Isso tudo não necessariamente é negativo, o filme tem muitas qualidades (a relação entre as duas personagens, uma nobre e uma mulher que trabalha é repensada a partir da relação entre pintora e modelo do retrato sendo feito), mas não somos confrontados com grandes questões éticas ou morais, sabemos claramente o que é certo e o que é errado, “torcemos” pelo amor injustiçado das duas – o que, novamente, não é necessariamente negativo.

Ainda que, em Benedetta, a menção ao “chá de papoula” (planta da qual se produz o ópio) como remédio ou mesmo do dildo utilizado pelas duas freiras se aproximem da questão da maconha e do aborto no filme de Sciamma, são abordadas a partir de outra chave. No filme de Verhoeven, tais elementos estão absolutamente inseridos na narrativa sendo contada, ainda que por vezes com um tom anacrônico e cômico, fazem parte de sua cadeia incessante de eventos  e mesmo da “moral da época”. Ademais, parecem provir de um interesse mais amplo do diretor pela tecnologia de modo geral, tanto como tema em suas narrativas quanto na tecnologia do próprio cinema.

Este interesse é refletido pelos próprios personagens em seus filmes – o personagem que constrói engenhocas vincianas em Flesh + Blood ou a carreira em videogames da personagem de Isabelle Huppert em Elle – e está presente em todo momento que assistimos o funcionamento de algum mecanismo, seja este algo complexo como um ciborgue ou algo rudimentar como a ferramenta de tortura utilizada em Bartolomea. O mesmo pode ser dito a respeito do interesse científico de Verhoeven (que tem um doutorado em física e matemática) pela matéria em seus diferentes estados, o que nos filmes se traduz de modo cartoonesco e visceral e nunca asséptico. Em Total Recall e Hollow Man, por exemplo, temos tanto transformações corporais dos personagens expostos a certos elementos quanto ambientes alterados que ditam a tensão dramática de suas narrativas: no primeiro, o herói deve salvar um planeta inteiro privado de oxigênio, enquanto no segundo a heroína fabrica um imã para fugir do freezer em que foi presa. Não é de se surpreender, assim, que este interesse se estenda à tecnologia empregada nos filmes em si, repletos de efeitos especiais. Longe de se apresentarem como atrações auto-centradas, estes efeitos estão absolutamente integrados às narrativas a que pertencem e funcionam como elementos essenciais às tramas, dos “bugs” em Starship Troopers a todo o trabalho de tornar o homem invisível em Hollow Man.

Em Benedetta, os efeitos computadorizados são reservados para as visões da freira que, com suas cobras de CGI, parecem propositalmente artificiais. Estas inserções oníricas (ou milagrosas) paralelas à narrativa principal funcionam de modo semelhante às pausas comerciais em Robocop ou o noticiário em Starship Troopers, de modo quase independente. No caso de Benedetta, no entanto, não temos certeza se são inteiramente subjetivas, e por isso tornam-se fonte da confusão não apenas da personagem mas do espectador; não sabemos se as visões vem de fora, de Deus, Jesus ou qualquer outra entidade, ou de dentro, da imaginação/alucinação de Benedetta. A artificialidade, o exagero e a romantização destas cenas – que pairam entre uma novela da Record e Game of Thrones – sugerem que sejam criação da freira –, restando ainda a questão se seriam ou não voluntárias/conscientes. Até mesmo sua confusão moral é transladada a estas visões, por exemplo quando, em uma destas, Jesus começa como seu salvador apenas para se revelar ser um ladrão tentando estuprá-la. Em sua última visão, após a qual aparecem seus estigmas, Benedetta vê Jesus na cruz pedindo para que ela se aproxime. Nu e sangrando, não é possível ver seu pênis, o que poderia tanto indicar o desejo já latente de Benedetta por Bartolomea ou um reflexo de sua própria figura em Jesus – pode, ainda, ser simplesmente uma questão prática que reforçaria ainda mais a natureza subjetiva destas visões, pois Benedetta nunca haveria visto o membro masculino, uma vez que Jesus é geralmente coberto por panos nas imagens.

Cobras de CGI atacam Benedetta

Ainda assim, são as visões que fazem com que acreditemos em Benedetta no início do filme, e até mesmo quando aparecem seus primeiros estigmas; acreditamos porque também vimos o que ela viu – e, ainda que excessivas, as visões se apresentam sem interrupções claras com a realidade. Mais adiante, no entanto, as visões cessam, e aos poucos percebemos que Benedetta não é a heroína ou mártir que parecia. Quando a personagem de Christina, inicialmente colocada num papel de vilã, começa a tentar desmascarar as mentiras de Benedetta, começamos a desconfiar da situação e, quando esta comete suicídio, não há como não simpatizar com ela e sua mãe.

É nesse sentido, também, que o filme se distancia muito de um drama lésbico. A relação entre Benedetta e Bartolomea, ainda que um evento central ao filme, não é seu único foco, e tampouco é muito romântica. Como mencionado anteriormente, o filme é sobre Benedetta, e Bartolomea é uma personagem secundária até dentro da relação, sempre hierárquica e desigual, entre as duas. A jovem plebéia adentra o convento, fugindo de seu pai abusivo, como um presente para Benedetta – sua admissão é comprada pelo pai desta – e assim permanece ao longo do filme, sempre submissa. Se, com sua chegada, Benedetta acredita dever lhe guiar da melhor forma, ao longo do filme ela parece negligenciar um pouco esta tarefa em nome de seus próprios prazeres. Bartolomea, pobre, ignorante (não sabe nem mesmo o que são os números), selvagem (ela se surpreende pelo uso das latrinas no convento, pois costumava “cagar”, em suas palavras, “lá fora, com os animais”) e, em muitos sentidos, inocente – “como uma criança”, o que Benedetta afirma ser também seu charme – acaba sendo uma porta de entrada para a protagonista no mundo terreno, dos prazeres carnais. Até o corpo das duas atrizes parece indicar essa relação: Benedetta, Elfira (44 anos), mais velha e forte, e Bartolomea, Patakia (29 anos), jovem e magra. E, de fato, é Bartolomea que irá levar a outra ao gozo, nunca o contrário, e é ela que depois será torturada e obrigada a revelar a localização do dildo que talhou para sua amante. Antes da tortura, o núncio a lembra que até Joana D’Arc confessou seus pecados sob tortura, não havendo por quê assumir que ela era mais corajosa do que a santa, sugerindo que se até uma santa abdicou de seus valores diante da dor, que dirá alguém como Bartolomea, tão mundana. Este momento também serve de lembrete a nós, espectadores, de que esta história não é nada como a de Joana D’Arc, ainda que as duas relatem o julgamento de mulheres pela Igreja na Idade Média.

Posto isto, todas as manifestações supostamente milagrosas de Benedetta podem ser apresentadas de modo absolutamente teatral no filme sem que isso signifique prontamente que não poderiam ser da ordem divina, em alguma instância. Assim como os preceitos da Igreja Católica são, essencialmente, ambíguos, sua retórica sempre foi teatral. Se, encenando uma peça, um “mistério” medieval, Benedetta tem sua primeira visão de Jesus, suas manifestações milagrosas se tornarão cada vez mais dramáticas. Primeiro, apenas aparecem seus estigmas, depois, começa a falar com uma voz grossa, supostamente de Jesus. No final, trabalha toda uma mise-en-scène para impressionar o público de Pescia e impedir que a queimem na fogueira: fingindo que irá confessar, abre os braços num gesto enfático revelando novos estigmas e começa a falar com esta mesma voz até introduzir, num momento anteriormente combinado, a abadessa, que também revela seu corpo cheio de marcas da peste, como prova de que a doença acometerá a cidade caso ela seja queimada. Após seu show terminar, começa o de Verhoeven – cuja uma das maiores qualidades é não ter medo do espetáculo, de grandes produções – quando o povo se revolta e instaura-se o caos, em meio a chutes e socos, correndo atrás do núncio e libertando Benedetta das chamas, cena que termina enfaticamente com a abadessa acometida pela peste adentrando no fogo e queimando.

Último show de Benedetta

Não é com surpresa que, no final do filme, vemos Benedetta escolher retornar para Pescia após todos seus contratempos no convento, ao invés de permanecer livre com sua amante. Na separação final entre as duas, Bartolomea confronta a outra, implorando que pare de contar mentiras, que admita que tudo era uma farsa. Benedetta continua impassível, respondendo o que já havia antes lhe dito ao longo do filme – e o que a abadessa também já havia sugerido –, que mesmo que ela mesma tenha forjado seus estigmas, quem poderá dizer que não foi Deus que agiu através dela, de “formas misteriosas”, que “escreveu certo por linhas tortas”? Para Bartolomea, tal afirmação e a escolha de Benedetta por voltar para o convento revelam apenas que é louca, mas o filme não afirma o mesmo; não se preocupa em responder essas questões nem mesmo em buscar suas respostas, apenas em registrar o que acontece concretamente ao redor, as evidências terrenas. O cinema de Verhoeven é “antiquado” e mesmo clássico, neste sentido: faz parte de uma era em que um filme não era uma afirmação de juízos de valor de seu diretor, mas falava por si mesmo, fazia sentido dentro de sua própria construção, nem para bem nem para o mal.

É importante dizer, ainda assim, que Benedetta é um Verhoeven menor. O filme não adentra inteiramente no mundo sobre o qual trata, como o diretor faria em Robocop, Showgirls ou Starship Troopers, nos quais em dados momentos sentimos que o filme caminha por conta própria; não apenas em seu discurso, como Benedetta também faz, mas em sua forma. Não encontramos um equivalente aqui ao aspecto ciborguesco de Robocop, ao kitsch de Showgirls ou ao mundo bélico de bonecos de ação de Starship Troopers. Benedetta ainda assume uma pequena distância confortável de seu conteúdo que não se encontra nestes; não atoa os últimos dois foram tão mal-compreendidos pelo público. Ao resumir, por exemplo, seus momentos grotescos a ocasionais e pequenas “piscadelas”, o filme nos lembra constantemente que é um filme “verhoeveniano”, não o camaleão de antes que se adaptava a qualquer ambiente, moldando-se como necessário.

Paula Mermelstein

Notas:

[1] Sobre o qual falo no meu texto sobre seu filme “Spetters” (1980).

[2] Leis essas, inclusive, que mudam ao longo dos séculos – não atoa a escolha pelo próximo Papa é tão importante, pois ele dirige os rumos que a instituição irá assumir em seu papado. O tratamento da Igreja em relação aos judeus, por exemplo, exemplificado no filme pela figura da freira Jacopa – cujo crime pelo qual deve se redimir no convento foi “apenas o fato de seu pai ser circuncidado”, de acordo com a mesma (o que curiosamente torna a questão corporal mais do que religiosa) – certamente não é o mesmo hoje do que era em séculos passados (se a Igreja deve ser condenada ou não por atos do passado é outra questão e uma que não está no filme). 

[3] O que também é, por si só, um fato interessante. Se em Robocop ou Total Recall, Verhoeven parecia partir da lógica do blockbuster para então subvertê-la, aqui ele brinca com o “filme de festival”, que considera “hipocrisia religiosa” (como anuncia seu pôster sensacionalista, “VIOLÊNCIA, SEXO E HIPOCRISIA RELIGIOSA”) tão apelativa quanto sexo e violência – podemos considerar os sucessos recentes de “Spotlight” (2015), “El Club” (2015) e “The Two Popes” (2019) – e com o “baseado em fatos reais” em uma narrativa repleta de mentiras e exageros. Algo semelhante com o que faz em Zwartboek (2006) em relação ao filme de Segunda-Guerra Mundial. Se há hipocrisia em Benedetta, é do tipo já previsto pelo próprio catolicismo, que absolve seus crentes de seus pecados com seu tão pregado perdão – o que não é tanto (ou simplesmente) uma contradição de sua parte quanto um mecanismo de superação da também tão pregada culpa; o pecado não é uma excessão, ele é a regra, e é o que você faz a partir disso que importa: a confissão e a redenção. Nesse sentido, Verhoeven adapta muito bem esse mecanismo ao seu cinema.

Continuidade e oposição: “Bande à part” (1964)

Sétimo longa-metragem realizado por Jean-Luc Godard, “Bande à part” (1964) tem o seu argumento tomado do romance policial “Fool’s Gold”, de Doloris Hitchens. Como em outros casos em sua filmografia, esta origem literária não compreende um fato determinante para o seu filme, que parte de um evento dramático ali presente para a construção de uma nova narrativa – neste caso, o roubo de uma grande quantia de dinheiro presente em um casarão por uma dupla de bandidos. O paralelo com o filme policial B, entretanto, é desde o princípio bastante evidente, tratando-se de um trabalho mais sutil em sua apropriação dos gêneros cinematográficos do que os que Godard realizará logo a seguir, como “Alphaville” (1965), “Pierrot Le Fou” (1965) ou “Made In USA” (1966), em que sua intervenção sobre os materiais se dá de maneira mais imponente, disruptiva e desorientadora ao seu espectador.

Ainda assim, é possível vislumbrar a sua irreverência perante a um gênero tradicional, embora menos nobre. Godard toma o gênero emprestado porque lhe oferece de uma só vez todos os elementos que lhe servem como pretexto narrativo, apoiando-se na simplicidade de seu enredo básico e explorando as estruturas previamente fornecidas para que possa operar um novo trabalho formal, o fazendo seja a partir das suas imagens, filmadas à maneira de um noticiário cinematográfico, de seu uso inventivo da montagem ou, mais particularmente, dos desvios que introduz nas ações e nos comportamentos de suas personagens. É Godard que impõe uma distância em relação a estes filmes clássicos, por um gesto radical de superação que imediatamente os torna anacrônicos, efetuando a sua continuidade por uma oposição. Afinal, trabalhando em condições distintas, Godard está ausente de compromissos comerciais com os estúdios, sob uma liberdade que utiliza a favor da colagem, partindo justamente da convenção e dos clichês como um pretexto para produzir novos efeitos.

Os créditos iniciais demonstram, desde o princípio, a originalidade e inovação do filme, primeiro em uma rápida montagem paralela dos três primeiros planos de seus protagonistas (em que os rostos rigorosamente ocupam os mesmos espaços no quadro), sobre a qual ocorre a formação letra-a-letra do título “Bande à part”, acompanhado de uma música divertida, com a qual rompe logo a seguir, na introdução do som direto e bruto dos ruídos de trânsito, dispondo os créditos da equipe sobre o registro do espaço cênico suburbano onde se desenvolverá a maior parte da narrativa.

Em meio aos planos que descrevem o movimento da região, um corte faz a câmera saltar para o que poderia ser o interior de um dos carros que vemos, no qual haverá dois homens, logo identificados como Arthur (Claude Brasseur) e Franz (Samy Frei). Enquanto avançam, Franz mostra ao companheiro uma menina que passa na rua sobre uma bicicleta, Odile (Anna Karina), a quem conheceu a duas semanas e deve usar como “isca” para o próximo golpe que irão efetuar, no casarão onde ela mora, o qual observarão descendo do carro e se postando na margem oposta do rio que divide a paisagem bucólica em que a casa se encontra.

Franz (Samy Frei) e Arthur (Claude Brasseur)

Durante a paragem, Arthur descreve o seu interesse por Odile (“irei tê-la quando desejar”), após Franz afirmar já ter “acariciado o joelho” dela, estabelecendo uma tensão entre os dois que permanecerá latente ao longo de todo o filme. Ambos devem encontrá-la no curso de inglês, onde Franz a conheceu. Chegando ao local, a voz off de um narrador, interpretado pelo próprio Godard, intervém direcionando-se diretamente aos espectadores e resumindo de maneira lacônica, “para aqueles que chegaram atrasados”, o conteúdo desta narrativa, que se apresentará ao longo de três dias, após abrir-se de maneira elíptica: “Três semanas antes. Um monte de dinheiro. Uma aula de inglês. Uma casa na beira do rio. Uma garota romântica.”

Na sala de aula, a leitura de um longo trecho de “Romeu e Julieta” de Shakespeare, a propósito de um ditado que os alunos deverão traduzir, servirá de fundo para as primeiras trocas de olhares entre Arthur e Odile, num flerte que se dá também pela troca de bilhetinhos, que reforçam a infantilização dessa pequena escolinha – já indicada pela própria figura de Anna Karina, que interpreta uma personagem muito mais jovem, de comportamento abobalhado que causa estranheza frente à figura da atriz. Ao fim, Odile se deixa seduzir por Arthur, enquanto Franz observa a tudo com o olhar entristecido, vendo escapar de si a garota pela qual havia se apaixonado.

Após apresentar-se como um filme de ação, “Bande à Part” se transforma na história de um triângulo amoroso no qual dois homens disputam a mesma mulher. Temos bem determinados aqui os tipos diferentes que se apresentam nessa narrativa: o bandido bom e o ruim, o obstinado e o sentimental, se associam à jovem ingênua e angustiada (“Eu não gosto de nada!”, ela diz em determinado momento), que se dedica durante a maior parte do tempo ao homem “errado”.

Odile (Anna Karina)

A intervenção decisiva de Godard sobre o gênero se dá pela inclusão de todos os cacoetes que em nada contribuem explicitamente com qualquer progressão narrativa , mas que evidenciam as relações íntimas de suas personagens e o que move propriamente as suas ações, mais do que a apresentação das ações dramáticas de fato: a primeira coisa que Arthur roubará da casa é um livro que encontra em uma prateleira, enquanto Franz em diversos momentos brinca ser um piloto de Indianápolis. Não há uma postura de seriedade de suas personagens, que se comportam a maior parte do tempo de maneira cômica: são maleáveis, agindo de maneira dinâmica e, muitas vezes, irracional – sob certo caráter de desenho animado, reforçado pelo plano geral com que os filma, abertura que dá conta de suas ações e do espaço [1].

Nesta operação, também a estrutura do filme se modifica, em uma abstração narrativa em que o crime passa apenas a existir de maneira secundária: suas personagens frequentam cafés, dançam, leem jornais e, para passar o tempo até a hora do roubo, decidem bater o recorde de “Jimmy Johnson de San Francisco”, como o homem que visitou mais rapidamente o Museu do Louvre, o qual atravessam correndo, momento em que temos a impressão de ver as suas personagens soltas pelo mundo, fugindo dos que tentam impedi-los e divertindo-se com o espanto dos visitantes reais ali presentes [2].

Afinal, para que seu filme tenha noventa minutos, Godard também deve fazer o tempo passar, incorporando novos elementos que não tratam de eventos dramáticos centrais à narrativa, resumida ao seu substrato mais superficial e operatório (o golpe e o romance), mas pelos desvios que nela são feitos. É o caso dos fait divers criminais que Arthur e Franz lêem nos jornais, enquanto esperam por Odile, que é vista em uma montagem paralela numa peripécia que envolve a subida de encostas escorregadias, o atravessamento do rio e até mesmo a alimentação a um tigre de circo, tudo posto para descrever o ambiente ao seu redor, fazendo expandir o universo pelo destaque ao cenário onde acontecerá o crime.

Neste sentido, as cenas que acontecem em becos, escadas, banheiros, pequenos cafés ou no metrô, refletem a própria condição destas personagens, presentes apenas em espaços discretos, ocultos: “Já estamos fora da cidade?”, Arthur e Franz se perguntam em dado momento, frente ao ambiente bucólico próximo ao casarão – atrás de uma “tela de árvores”, como descreve o Godard narrador, a propósito do cenário pouco povoado e invernal, distinto da Paris movimentada de seus filmes mais conhecidos.

Se, assim, o título “Bande à part”, em um primeiro momento, se refira a este grupo marginalizado, sem laços exteriores na história, num lugar distante, sua significação é complexificada a partir de um trocadilho com o experimento de Godard sobre os usos antagônicos das “bandas” de imagens e sons. Cortando para um evento que ocorre ao redor da ação principal, enquanto o som desta continua, o cineasta mantém apenas o essencial do que está sendo comunicado e já providencia um novo motivo visual, fazendo o filme progredir. Em seu dinamismo, som e imagem não têm a necessidade de se repetir, mas apenas se convergem, tocando-se por vezes [3].

De modo semelhante, sua voz off apenas se introduz para complementar o que a imagem não mostra, chegando ele mesmo a se recusar a descrever as emoções de suas personagens, para que “as imagens falem por si mesmas”. Mais tarde, quando diz ser a hora certa para isso, o narrador o fará, em meio à famosa cena de dança das personagens no café, excluindo da trilha sonora a música à qual dançam durante os intervalos em que a voz é ouvida, detendo-se em cada personagem. O mesmo recurso será explorado também neste café quando, após uma discussão, as personagens farão um “minuto de silêncio”, enquanto encaram umas às outras em uma nova brincadeira não apenas entre si, mas do próprio filme, ao que Godard exclui completamente o registro sonoro durante o período, em uma suspensão deliberada e absoluta das ações (e do elemento sonoro) no filme.

Assim que chegam ao café, Franz senta-se ao lado de Odile, no sofá encostado à parede, enquanto Arthur se coloca do outro lado da mesa. As bebidas são trazidas, distribuídas ao contrário daquelas que o haviam pedido, a primeira das muitas reorganizações que acontecerão em torno do espaço restrito desta mesa e sob a duração de um único plano, enquanto as personagens masculinas se movimentam em suas consecutivas abordagens à Odile. Ao cair da noite, os dois homens decidem quem ficará com Odile através de um lance de cara ou coroa, ao que ela escolhe por Arthur antes mesmo de saber o resultado, partindo com ele em passeio. Descem “ao centro da terra”, como diz a voz de Godard; no metrô, ela pergunta se ele teve muitas namoradas, ao que Arthur se cala: Odile, de fato, está apaixonada e, de maneira ingênua, querendo se casar. Ele, evidentemente, não quer nada além de que ela “entregue seus seios e coxas”, o que a jovem acredita ser o casamento. Odile e Arthur dormem juntos. A garota vai embora. Arthur é coagido a trair o seu companheiro, após revelar o golpe ao seu tio. Antecipa o plano junto de Franz, partindo na mesma noite.

Odile tem medo de Franz, que lhe “parece sempre tenso e cruel”: Franz gosta de Odile, mas não o expressa. Arthur apenas quer tê-la e faz o necessário para conseguir a sua atenção. Tendo de esperar até a noite para praticarem o golpe (“como na tradição dos filmes B ruins”, diz o narrador), decidem vagar pelas ruas de Paris, à beira do Rio Sena, onde Franz compra um livro para presentear a garota, o romance de Raymond Queneau que carrega o seu nome, “Odile”. A seguir, o golpe não dá certo, pois Odile não o preparou como foi ordenada. Arthur bate nela e Franz a defende. Ambos percebem que o crime foi previsto e decidem voltar na próxima noite. “Franz teria dado tudo para consolar Odile”, diz Godard.

No dia seguinte, Arthur finalmente encontra o dinheiro no casarão, um movimento panorâmico parte da descoberta para revelar a aproximação do tio, de arma em punho apontada ele. Atira por quatro vezes, enquanto Arthur segue caminhando em sua direção, resistente aos tiros e também com a arma na mão, até que também atire, uma única vez, para que o adversário caia. Se, no princípio do filme, Arthur cai, jogando-se ao chão e fingindo agonizar até a morte, em uma brincadeira com Franz, esta atuação anterior se tornará a prefiguração da realidade vista aqui, pois após rodopiar por alguns momentos, sob gestos ainda mais hiperbólicos que os que havia simulado antes, Arthur finalmente tomba sob uma árvore, ao lado do tio.

Sua morte estabelece definitivamente a relação entre Odile e Franz, que fogem levando parte do dinheiro que, nos é revelado, era “roubado do governo”. Em um dos planos finais, os vemos a bordo de um navio prestes a viajar para a América do Sul, clássico clichê de refúgio de bandidos, sentados com um cachorrinho ao fundo, imagem terna, de conciliação final. Tal como Godard havia introduzido a sua narrativa, ele também se despede, anunciando que “minha história termina aqui, como uma novela barata”, sob a promessa de “novas aventuras de Franz e Odile”, em Cinemascope e Technicolor – justo o contrário do que vimos, em uma nova oposição, característica de quem surpreende a si mesmo a cada novo trabalho.

Matheus Zenom

Notas:

[1] Comportamento cômico que se pode atribuir à influência de Frank Tashlin, notório diretor de animações e longas-metragens, onipresente nas listas de “melhores do ano” de Godard em sua época de Cahiers du Cinéma.

[2] Este breve momento da corrida, entretanto, também trará suas repercussões, de maneira literal em um filme “The Dreamers” (2003) de Bernardo Bertolucci ou, indiretamente, em uma passagem como a sequência final de “Barão Olavo, o Horrível” (1970) de Júlio Bressane, conforme descrito aqui: https://limiterevista.com/2020/12/29/dramaturgia-de-barao-olavo-o-horrivel/

[3] Este procedimento, que se inicia com maior gravidade em sua filmografia a partir deste filme, chegará a um paroxismo nos anos seguintes, primeiro com “Deux ou trois choses” (1967) e, mais tarde, com seu retorno aos longa-metragens nos anos 80, como “Prénom: Carmen” (1983)ou “Je Vous Salue, Marie” (1985), filmes em que também dá conta de uma progressiva abstração narrativa, constituirá uma apropriação decisiva que particulariza a partir das ideias de Robert Bresson.

“Double Messieurs” (1986), de Jean-François Stévenin

Uma sequência de imagens remonta o passado de um grupo de jovens. Os arquivos apresentados contêm um mapa de uma região montanhosa, imagens de uma antiga instalação hoteleira, fotografias de jovens garotos com rostos pintados e olhos vidrados e outras que registram cenas de tortura entre eles. Um dos torturadores tem uma suástica no braço e seu rosto nunca aparece de frente.

As fotografias violentas insinuam também a possibilidade de encenação de uma trupe teatral que se diverte de maneira juvenil e sádica com suas próprias performances. Um deles aparece em uma das fotografias com uma expressão ditatorial raivosa, porém seus excessivos gestos faciais e manuais levantam a dúvida sobre o caráter da imagem; já em outra fotografia, utiliza o mesmo terno de antes, porém posa com um cigarro na boca e olhar cortante mirando algo que não vemos, sugerindo tanto a possibilidade de um jovem ator metido quanto a de um predador raivoso à espreita.

O agrupamento de arquivos apresenta um acampamento de jovens de motivação duvidosa localizado em uma região montanhosa.

François (Jean-François Stévenin, jovem das fotos com expressão ditatorial, também diretor do filme), acorda sentado em uma poltrona de avião. Os flashes eram memórias, mas também sonho de quem cochilava. A sua frente, há um livro em cuja capa reconhece uma das figuras das imagens anteriores, Léo (Yves Afonso) utilizando um quepe, um casaco aberto mostrando seu tronco peludo e uma corda enforcando seu braço levantado. Certamente uma encenação. A imagem do amigo estampado contagia Stévenin a dar um riso com o canto da boca. Riso também de quem sabe que apresentou um passado impenetrável e delimitou a zona proibida em que a ficção em constante presentificação não ultrapassará.

Após a viagem de avião e uma reunião de trabalho na cidade de destino, François vai em busca de Léo, atualmente um dublê frenético desocupado que divide apartamento com um estranhíssimo motorista de ambulância (Hurricane). Ao encontrá-lo, François imagina uma arma com as mãos e finge rendê-lo. Extasiado com a surpresa, o parceiro se aproxima devagar falando baixo e conduzindo a conversa aos sussurros, alimentando a descontração. Estabelece-se assim o pacto interior que conduzirá os dois e quem mais se juntar a jornada: os atores são livres e estimulados a inventarem; porém, algumas informações não podem ser ditas, eles escondem-nas e sussurram para que nós, e sabe-se lá quem mais, não ouçamos. Sendo assim, a tensão moral constante balança entre um passado secreto e as brincadeiras de ambos. A imaturidade é latente, pois o ímpeto de descontração do presente desvia-se a todo instante de um passado ultrapassado, pelo menos para François. O presente é inventivo, descontraído e, consequentemente, sedutor. A construção das personagens não pode ser realizada efetivamente, pois o passado é desviado a todo custo como uma zona proibida; logo, resta-lhes as reações e os impulsos do imediato, resta-lhes insinuar.

Léo supõe, a partir de uma noticia de jornal, ter reconhecido um terceiro companheiro de acampamento (Kuntchinsky), e sugere que François aproveite a viagem de trabalho à Grenoble no final de semana para procurar o antigo amigo, supostamente um reconhecido engenheiro. Na cidade seguinte, chega sozinho a casa de Kuntchinsky, porém três seguranças nem permitem que ele interfone, pois estava acontecendo uma recepção especial no local.

Encerra sua breve passagem na cidade e retorna ao aeroporto para voar de volta. Entretanto, sua passagem foi cancelada por telefone. Foi Léo, já esperando no aeroporto com a ambulância, pois, segundo ele, a dupla não poderia deixar de encontrar o terceiro amigo. François sorri e se deixa levar. Entre sirenes de ambulância e rotas proibidas em alta velocidade, o protagonista sabe que está retornando a um antigo primitivismo mal-vindo e muito sedutor. 

François é levado – tanto arrastado quanto criança atrevida –, mas não acreditamos em sua inocência, seu envolvimento é sempre duvidoso, seu sorriso, como sempre, um tanto malicioso, de quem gosta do que está fazendo; antes de tudo, atuando. Enquanto Léo é bobo, a impulsividade impertinente não esconde a irresponsabilidade de seus atos; por outro lado, toma as rédeas da progressão narrativa que Stévenin, também diretor, não toma. Um sorri com o canto da boca, o outro toma os impulsos refreados por trás do sorriso.

Chegando na bela casa do terceiro membro da trupe, agora sem seguranças, eles se deparam novamente com o portão fechado, mas decidem por invadir a propriedade e aguardar a chegada do dono. Anoitece e uma mulher elegante e sensual chega ao apartamento, a esposa de Kuntchinsky (Carole Bouquet). Sem graça, mas com artimanhas suficientes nas mangas, os amigos tentam se explicar ou se livrar da culpa da invasão domiciliar. Outros homens surgem de locais desconhecidos, familiares a ela por bem ou por mal, estranhos para a dupla, mais ainda para a trama. Não é possível compreender o que se sucede, como uma história de bêbado – François até vomita – todos parecem suspeitos e dissimulados em relação a seus passados proibidos. A tensão é instaurada e, para coroar a cena do crime, Léo, acompanhado por François, sequestra por impulso (sexual, heroico, juvenil, teatral, pervertido?) a esposa que corria da casa e foge com um carro que estava no local.

Com a cena e a situação do crime difusamente apresentadas (anti-heróis que sequestram para salvar, a femme fatale tão impenetrável quanto a dupla e homens suspeitos que surgem como uma conspiração a cobrar – um passado também cobiçado pelo espectador), Double messieurs se transforma em um road movie oblíquo em que o novo trio formado foge dos perseguidores rumo ao refúgio final: a montanha.

Os vínculos entre as personagens são difusos, a sucessão é elíptica e a narrativa é quase inexistente de tão tangencial. O filme segue e monta sua rota de tramas a partir dos registros de reações e impulsos do trio à torrente incessante que acompanhamos e que eles mesmos criam conjuntamente. Os retratos das personagens são sempre tensos, pois os gestos reativos e impulsivos apresentados por elas são divergentes por natureza. Realizados ininterruptamente e de maneira quase aleatória, os gestos vão da comicidade ao desespero em segundos pelo imediatismo, sempre divergindo de uma unidade psicológica central que defina as personagens. 

Em Double messieurs, não se anda, corre. Não se fala, sussurra. Não se para, esconde-se. Não se olha, checa-se. A paranoia é condição da criação. A relação dos atores com seus limites predefinidos, proibidos, e seus possíveis atravessamentos é essencialmente paranoica. 

Se é possível estabelecer uma cisão entre o drama das formas e o drama dito convencional, este é um filme que precisa ser considerado, pois prontamente rejeita o drama no sentido corrente do termo para realizar sua sucessão tão dramática e intrigante pelas formas. Se estamos sempre a um passo atrás das personagens, para a forma do filme não seria diferente, esta é deslocada e seus movimentos almejam alcançar os que não param de correr, ouvir o que sussurram, encontrar os que se escondem e, assim como eles, não olhar, mas checar.

Como registrado nos créditos, “La Lumière, Le Traveling, La Caméra…” são as diretrizes composicionais dessa busca da forma pelo seu objeto, que descobrem seu procedimento ao acompanhar as invenções dos atores. A luz, sempre contrastante, inunda a imagem em sombras e realça a constante colisão entre tons quentes e frios. O travelling, movimento recorrente, altera os contrastes no interior dos planos, descobre silhuetas e revela corpos e objetos produzindo dinamismo e tensionamento pictórico a sucessão irrefreável. A câmera, sempre posicionada precisamente, joga em seus enquadramentos com as linhas de força, com os ângulos e com a profundidade em suas composições. Por exemplo, a maneira como a montanha – e suas reproduções pictóricas – atravessa a profundidade com sua largueza e falsa bidimensionalidade; ou quando a reprodução da montanha, um pôster por exemplo, amplia a profundidade somente na área da gravura. 

O filme parece seguir uma montagem impressionista muito cara ao cinema contemporâneo do gênero de ação, em que luzes, movimentos, contrastes, cores e os efeitos reagentes destes elementos diante do suporte utilizado, neste caso a película, são incorporados às sequências narrativas de ação proporcionando dinamismo e dilatando a construção da trama. No filme de Stévenin, o material exclusivamente pictórico e dinâmico (que é normalmente incorporado como uma camada extra à trama nos filmes de ação frenéticos) parece seguir seu próprio curso tangente pelas formas abstraindo a narrativa, já que o curso das personagens segue rumos divergentes pela experimentação inventiva e impressionista dos atores. 

O montador Yann Dedet explica que a construção ocorreu da seguinte maneira: se a sequência narrativa segue a ordem de planos A-B-C, na montagem seria reescrita, por exemplo, disposta em C-A-B, de acordo com o material realizado e encontrado nas gravações. Há assim uma disposição em variadas ordens dos detalhes e seus motivos. A partir de tomadas curtas e dinâmicas, almeja-se reescrever o roteiro tomando diferentes sentidos.

A câmera e o travelling imprimem a luz, e os atores seguem impressionando. Mas quem dita o sentido do curso? Sabemos que estamos a um passo atrás das personagens (câmera falível), mas o travelling ainda assim não deixa de seguir seu trajeto da partida até a chegada (câmera infalível). Somos vítimas da elipse.

Gabriel Linhares Falcão

Hong exemplar: sobre “Geukjangjeon” (2005)

Duas premissas: na primeira, um rapaz reencontra uma ex-namorada e compartilha de sua crise existencial com ela; na segunda, outro homem vaga pela cidade enquanto pensa nos amigos e na vida. Ambas são bastante simples, dignas de um cotidiano quase banal, e se interseccionam a partir de uma bifurcação na narrativa; primeiro, assistimos ao que era, na verdade, uma ficção dentro da ficção, um filme que Tongsu, o protagonista da segunda história, assistia, para então passarmos a acompanhá-lo. E é apenas com o encontro entre as duas, este arranjado de maneira tão terna, e um certo tensionamento de uma com a outra, que ambas passam a revelar suas reais características e qualidades. São sob esses pontos que se estrutura Geukjangjeon, filme de Hong sang-soo que representa um caso exemplar dos resultados possíveis quando seu estilo é manipulado com o devido refinamento e discrição.

A primeira parte, tratando do rapaz desiludido com a vida que reencontra uma antiga namorada, se calca numa série de repetições: eles se encontram e andam pela cidade, com ele um tanto receoso do que pode acontecer e eventualmente tentando se afastar. Ao bem da verdade, essas situações não desenvolvem de fato nada do casal, nenhum aprofundamento dramático, apenas mostram as personagens caminhando, abrindo e fechando portas, tendo relações sexuais que não prosperam… a insistência no registro da atividade maçante, a ociosidade e a confusão dão lugar a um ponto de limite: tentarem o suicídio em conjunto, ideia da qual ela desiste, deixando-o para ser salvo por seu irmão. A segunda lida com uma mesma estagnação: Tongsu, um outro rapaz, acabara de assistir, descobrimos, a esta mesma primeira parte que nós – que se revela ser um curta-metragem dirigido por um colega seu que está gravemente doente no hospital, notícia que recebe logo após o fim da sessão. À sua saída do cinema, se seguem um encontro com outro amigo, este acompanhado de sua família, uma série de caminhadas a esmo, encontros ridiculamente malsucedidos com um grupo da faculdade e o surgimento de uma obsessão pela atriz do filme, Youngsil. Essa obsessão, num primeiro momento motivada pelo desejo de transportar à realidade o que pertence à ficção, ganha contornos mais profundos quando o rapaz passa a acreditar que o filme era, acima de tudo, sua própria vida ficcionalizada por seu amigo diretor. Seja de maneira ocasional ou evidentemente forçada pela personagem, as situações-base vistas antes passam a se repetir, como se uma narrativa espelhasse a outra, com diferenças sutis em pequenos detalhes e seus consequentes desdobramentos.

Ao lidar com estes fatos, o olhar de Hong é certamente abrangente. As cenas, sempre tão bem definidas em matéria espacial, temática e temporal, jamais deixam de incorporar qualquer elemento extra que surja – desde um idoso que pega a moeda deixada pelos protagonistas numa máquina até o amigo de Tongsu que parece verdadeiramente desnorteado ao encontrar uma multa de trânsito em seu carro, como se ali víssemos mesmo o ator reagindo, e não a personagem. Quer sejam planejados ou espontâneos, frutos de alguns segundos a mais nos quais a câmera se furta de terminar o registro por um motivo inesperado, esses detalhes estão lá e compõem o mundo de seu filme, sobre os quais os elementos que estabelecem a comparação entre as duas partes lentamente se manifestam. Como peças geométricas de encaixes complementares, elas se tocam fazendo nascer o aspecto mais particular do que, cada vez mais, se fechou como uma fase de sua obra [1]: as variações e repetições sobre as quais a vida pode se escorar e como seu cinema lida com elas, chegando a cenas que vão do cômico ao embaraçoso, de um momento lúdico ao longo silêncio causado por uma grande carga dramática. A repetição, por exemplo, é encontrada nas crises dos dois rapazes, ou no mesmo homem com uma guitarra nas costas passando duas vezes no lugar em que o filme começa; as variações, então, com um dos dois protagonistas subindo a montanha que o primeiro faz menção de ir, mas não vai, ou fumando do pacote de cigarros vermelhos que o outro tanto procurava.

Se o olhar de Hong muito admite, também não busca fazer qualquer distinção dos fatos: seja uma cena de sexo ou um reencontro entre amigos numa cafeteria, tudo será visto da mesma forma (uma câmera fixa, um grupo de atores e procedimentos de zoom e movimentos de câmera simples que buscam dar mais ou menos foco a qualquer acontecimento), como se ali estivesse sendo ressaltada a universalização sobre qualquer particularidade das personagens e situações. Como é via de regra em seus filmes, todos compartilham as mesmas histórias: uma crise, um problema conjugal ou um desconforto social; também ocupam as mesmas funções, sempre ligadas ao cinema; e, frequentemente, se tratam dos mesmos atores. Assim, essas personagens e seus virtuais desenvolvimentos se apagam, e dos filmes o que se engrandece é o que parece uma provocação a qual Hong se submete: arranjar e superar desafios de estrutura e encenação, elaborando cruzamentos entre duas histórias, pensando em como reinventar a abordagem de uma cena cuja situação-base já nos foi mostrada antes. 

Em uma das cenas, que evidencia de forma muito clara a atenção aos detalhes nas interpretações dos atores, Tongsu decide descer do carro em que estava junto da família de seu amigo apenas para poder fumar um cigarro, pedindo de volta seu cachecol à filha do colega, que está doente. Seu amigo lhe dá uma resposta grosseira, a garota tosse e a porta do carro é fechada com raiva. Uma característica em comum entre os protagonistas das duas partes (uma hilária e angustiante falta de tato social), então, é explorada tanto numa cena de explosão gestual, como a do final da primeira história, em que a família do rapaz está reunida ao seu redor quando ele volta do hospital e sua mãe briga com ele, como em uma passagem muito mais comedida e quase ritmada (a seqûencia no carro descrita anteriormente). O fato é que há esse problema comum às personagens e ele se repetirá, sempre sob uma nova abordagem gestual e rítmica, partindo de uma cena semelhante a uma anterior, mas agora sob outro contexto, e a trabalhando de modo ligeiramente diferente para chegar em um novo resultado, de modo que este faça eco com algum outro momento do filme.

Quando, após uma tentativa estranha e frustrada de transa, Youngsil se prepara para ir embora e diz a Tongsu que ele “não entendeu nada do filme”, se referindo ao curta-metragem que compõe a primeira narrativa, a força de Geukjangjeon se faz clara: é pela repetição de uma cena de sexo penosa de tão constrangedora (incrivelmente, até mais que da primeira vez), colocando a atriz na mesma situação, num quarto quase idêntico, e chocando o registro ficcional na ficção com o “real”, que se atinge uma gravidade curiosa na cena, tanto dramática quanto cômica. É como um clímax, mas cujos efeitos do acúmulo narrativo se manifestam de maneira diferente que os da ficção tradicional; jogando com repetição e variação, Hong torna tão forte o ato de, nesta cena, simplesmente filmar Youngsil fechando a porta e indo embora, para então mover a câmera para Tongsu, sentado ao chão, nu e coberto por um lençol, que observa tudo com uma reação atônita – ele realmente não entendeu nada. O efeito aqui se dá menos por qualquer profundidade das personagens e da história do que pelo diálogo que esse momento trava com sua contraparte da primeira metade do filme e por como, nesta cena específica, Hong expõe as diferenças entre os protagonistas de maneira mais evidente do que como as semelhanças haviam se colocado até então, sempre bem sutis – chegando assim ao que, sob as linhas de sua estrutura, se dá como um limite deste acúmulo de gestos, fatos e repetições.

Um dos rapazes recebe alta do hospital e reencontra sua família; o outro visita seu amigo enfermo. Em ambos os casos, alguma perturbação poderia ser sentida na narrativa ou mesmo no comportamento das personagens a partir destes eventos, mas isso já não interessa a Hong e, então, seus filmes acabam. Existe neles um certo limite, que é quando ao cineasta se esgotam as possibilidades ou até interesses de se variar sobre uma situação e o que sobraria seria qualquer tentativa de moralizar e modificar as personagens, desenvolvê-los mesmo – o discurso feito por Tongsu ao final, após chorar ao lado de seu amigo no hospital, fecha o filme e deixa qualquer confirmação de uma real mudança muito ambígua. Bem como nunca uma cena é decupada em mais de um plano, assumindo assim um ponto de vista único durante toda sua duração, o desenvolvimento das narrativas também nunca parece ir “longe o suficiente”. O que efetivamente aconteceria na vida do rapaz depois de voltar do hospital e brigar com a família, quando encara a paisagem do terraço de casa, ou a Tongsu após visitar seu colega doente, são questões que Hong se priva de responder. A “hora de pensar e refletir”, que o protagonista menciona na última cena, nos é omitida, demarcando o encerramento de sua história e, portanto, do filme. 

Parece existir uma sintonia em como pensar a encenação e as narrativas. O limite antes mencionado é intrínseco ao desafio do cineasta: como tensionar o suficiente uma narrativa ao ponto de esgotá-la (esgotamento num sentido de como Hong lida com elas, longe do tradicional)? Ou, ainda, como lidar com uma cena de apenas um ponto de vista para depois repeti-la com diferenças sutis, assumindo uma postura não apenas de exímio gerenciador de elementos pré-dispostos (atores, espaço, objetos), mas também de agregador, ao abraçar os eventuais acasos presentes no processo de filmagem? São essas algumas das questões chaves que o cineasta toma como ponto de partida de seu trabalho, engendrando-as sob uma construção pouco alardeada que parece síntese do melhor aproveitamento destes processos tão caros a ele [2] – grande exemplo disso é a passagem de uma parte do filme para a outra, feita de modo muito discreto na saída de uma sala de cinema, com a música da narrativa anterior que se esvai ao fundo, como se nada tomasse lugar ali de fato. Essa discrição, que ergue um filme bem mais instigante e complexo do que seu aspecto caseiro pode muitas vezes dar aparência, é certamente o que define o “Hong exemplar”.

Davi Pedro Braga

NOTAS

[1] Desde pelo menos Bamui Haebyeoneseo Honja (Na Praia à Noite Sozinha, 2017) é perceptível um novo direcionamento na filmografia de Hong, talvez o surgimento de uma “nova fase”. A respeito disso, recomendo a leitura do segmento final de O mundo como palco – A economia estética de Hong Sang-Soo”, por Matheus Zenom, publicado na edição 8-9 da Revista Foco.

[2] O que não significa, ao mesmo tempo, que algo tão abrupto como o choque provocado pela narrativa dupla de Jigeumeun-matgo-geuttaeneun-teullida(Certo Agora, Errado Antes, 2015) seja “nocivo”, uma vez que os efeitos procurados lá, os desafios, uma década depois, são outros. Sobre este filme em particular, ver As tintas de Hong Sang-soo”, por Paulo Martins Filho, publicado na edição #2 da Limite.