Spetters: O baixo-materialismo de Paul Verhoeven

“Embora no interior do corpo o sangue corra em igual quantidade de cima para baixo e de baixo para cima, toma-se o partido do que se eleva, e a vida humana é erroneamente vista como uma elevação. A divisão do universo em inferno subterrâneo e em céu perfeitamente puro é uma concepção indelével, uma vez que a lama e as trevas são os princípios do mal, assim com a luz e o espaço celeste são os princípios do bem: com os pés na lama, mas a cabeça mais ou menos na luz, os homens imaginam obstinadamente um fluxo que os elevaria sem retorno ao espaço puro. A vida humana comporta de fato a fúria de saber que se trata de um movimento de vai-e-vem da sujeira ao ideal e do ideal à sujeira, fúria que é fácil fazer passar para um órgão tão baixo quanto o pé.” 

Georges Bataille em “Dedão do pé”, Documents (trad. João Camillo Penna e Marcelo Jacques de Moraes)

O título deste artigo não pretende iniciar um diálogo filosófico com o “baixo materialismo” de Georges Bataille, e sim, informado por este, caracterizar as especificidades do que considero, aqui, o baixo materialismo dos filmes de Paul Verhoeven, que acompanham indivíduos “com os pés na lama, mas a cabeça mais ou menos na luz” em seus diferentes “movimento[s] de vai-e-vem da sujeira ao ideal e do ideal à sujeira”. Começo, então, falando sobre Spetters, seu filme de 1980, produzido ainda na Holanda e no qual já estava circunscrito tudo que há de melhor em seu cinema. Disfarçado de coming of age, o filme é na verdade um drama complexo sobre as limitações humanas no sentido mais concreto possível, em suas dimensões econômicas, sociais e materiais – que serão desenvolvidas sob novas máscaras de representação em seus filmes feitos nos Estados Unidos.

O filme, a princípio, gira em torno de três amigos praticantes de motocross, Rien, Eef e Hans (imagem), que se interessam pela mesma garota, Fientje, uma vendedora de croquetes em um trailer de rua. O croquete com mostarda, aliás, uma comida de rua tipicamente holandesa, pauta as relações sociais que serão estabelecidas no filme: comida suja, gordurosa e de formato fálico, parece ditar o tom de Spetters como um todo. Há um momento em que Fientje fala: “meu pai me disse que a vida é como um croquete: quando você souber o que tem dentro você perderá seu apetite”. A frase funciona tanto como uma espécie de presságio para o futuro sombrio, imprevisível, com o qual esses personagens irão se deparar, como em seu sentido literal e imediato, quando a personagem revela, em um lixão, que recheia os croquetes com ração de cachorro (imagem). É daí que parte o cinema de Verhoeven: da sujeira, do croquete, da vendedora de um trailer, do motocross na lama.

(Da esquerda para a direita: Hans, Rien e Eef)

Mas há também o aspecto ridículo do croquete, que é motivo de piada ao longo de todo o filme. Há um momento, por exemplo, em que os jovens estão numa boate e vêem uma menina negra dançando: “elas fodem melhor”, um deles comenta. Um dos meninos vai atrás dela, que parou de dançar para comer croquetes com mostarda no bar. Ele oferece uma cerveja para a menina e ainda se gaba para os amigos “essa menina é fácil”. Começa, então, a acariciar sua perna, e ao adentrar ainda mais sua mão em sua coxa, retira os dedos sujos com uma massaroca amarela e olha assustado para a menina, que sorri e levanta sua saia, revelando um potinho de mostarda entre suas pernas (imagem), colocando-o de volta na mesa e se despedindo. Com todos seus amigos rindo e fazendo trocadilhos (que certamente devem ser mais engraçados em holandês), o menino passa a mostarda de seus dedos em um dos croquetes e come.

Essas gags não se limitam ao croquete e permeiam o filme como um todo, principalmente na maneira como este lida com a sexualidade de seus personagens. Mas diferente do coming of age convencional, os corpos nus e os genitais dos personagens aqui são de fato colocados diante da câmera – não apenas os das mulheres – e essa descoberta adolescente, de maneira muito mais próxima da realidade do que costuma ser retratada no cinema, é, acima de tudo, ridícula. Há, por exemplo, um momento em que dois casais vão transar num prédio em construção: cada um vai para um canto, divididos por um pedaço de parede; o menino de um dos casais não consegue ficar ereto e a menina do outro descobre que está menstruada. O primeiro casal começa a ouvir os outros transando e decide fingir que também estão, fazendo sons de gemido; nisto, a câmera se movimenta para o outro lado da parede e revela que os outros dois também fingem (imagem). Em outro momento, acompanhamos uma cena de sexo em toda sua duração, que, no entanto, dura apenas alguns segundos. O tom cômico, entretanto, será aos poucos substituídos pelo trágico: se no início vemos jovens fingindo que estão transando, mais tarde veremos um estupro coletivo.

A cena mais emblemática, neste sentido, será aquela em que, de maneira patética (mas também, eventualmente, profética), os meninos decidem quem será merecedor de Fientje: eles medem seus pênis e aquele que for maior ganha o direito de conquistá-la. Uma decisão tomada da maneira mais concreta possível para aqueles que acreditam que Fientje deve ficar com quem lhe der maior prazer. Fientje, entretanto, não está em busca de prazer, mas de segurança financeira, e quem ganha a disputa de maior pênis é Hans, que, com sua moto caindo aos pedaços, é o pior motoqueiro entre os três – curiosamente, essa disputa entre pretendentes também parece algo antiquado, ainda mais quando a personagem está levando em conta os “dotes” de cada um.

Se, a princípio, essa preferência da personagem por aquele que tem mais dinheiro parece um clichê até mesmo machista, Fientje não é, entretanto, uma patricinha de Beverly Hills a procura de um sugar daddy, mas uma vendedora de croquetes, com pôsteres de John Travolta e Elvis Presley pendurados na parede do trailer onde vive e trabalha, junto com seu irmão; e o dinheiro, no filme, não é uma entidade abstrata, mas aparece, em espécie, em todas as transações (imagem). Quando um policial aparece e exige dos dois uma licença para o trailer – após uma caminhada melancólica de Fientje pela cidade, onde observa famílias felizes pelas janelas das casas –, Fientje o leva para dentro por alguns minutos e na cena seguinte apenas a vemos escovando os dentes. Sua perspectiva é apenas realista, por isso o primeiro garoto que escolhe não é Hans, mas Rien, que ganha a corrida de motocross: o mais promissor, que larga sua namorada por ela. Mas Fientje não simplesmente espera de mãos cruzadas pelo sucesso de Rien, ela arranja um contrato para ele com um investidor japonês e exige que todos sejam pagos pela participação que terão no canal de televisão – que permeia todo o filme, contrastando os fracassos dos personagens com o sucesso do atual campeão de motocross, Gerrit Witkamp (interpretado por Rutger Hauer).

Os meninos conhecem Fientje em meio a uma briga entre ela e alguns motoqueiros que não queriam pagar os croquetes que comeram; o irmão de Fientje, de prontidão, segura um dos caras em quem ela joga água fervendo. Outro motoqueiro se prepara para jogar um tijolo no trailer, mas Rien o tira de sua mão e dá para Fientje, que depois irá lhe presentear com o mesmo tijolo, embrulhado em papel de presente, no bar de seu pai, onde Rien o coloca junto a outros troféus ali expostos (imagem). O tijolo como um troféu, outro emblema do filme, como o croquete. Ainda que o filme tenha como base uma trama convencional, com a ascensão e a decadência de seus personagens, esta ascensão nunca é idealizada: seus personagens são imperfeitos e suas motivações são evidentes; tampouco a queda cai num sentimentalismo ou moralismo: o filme sempre mantém seus pés no chão, junto ao tijolo e o croquete.

Logo antes de seu ponto de virada dramática, Fientje e Rien estão comemorando seu sucesso que alcançaram juntos, no alto de uma torre com vista para a cidade, na qual ela usa um casaco de pele caro que ele comprou. Na cena seguinte estão na cama, onde Fientje enuncia sua fala profética sobre a vida ser como um croquete. A próxima cena definirá os rumos dos personagens de maneira definitiva e é, novamente, um tanto patética. Eef, um dos meninos, trabalha em um posto de gasolina, quando Rien e Hans, passam de moto por ele: Rien com sua nova moto Honda, presenteada pelos investidores japoneses, Hans com sua moto sucateada (imagem). Eef ainda brinca com Rien:“não caia de cara”, ele diz, e então volta a atender a família burguesa – o pai, que está pagando Eef, usa um terno e fuma um cachimbo – que enche o carro de gasolina. As crianças da família insistem para o pai comprar laranjas, o que a mãe aprova: “estamos de férias”, ela diz. Eef presenteia a família com as laranjas, sem cobrá-los. No plano seguinte acompanhamos Rien e Hans saindo de uma estrada de terra e entrando na estrada principal, onde já podemos ver o carro da família burguesa (imagem). Dentro do carro, as crianças brigam pelas laranjas e o pai acaba jogando o saco pela janela. As laranjas batem na cara de Rien, que perde o controle da moto e cai com suas costas batendo em um pino de concreto. Hans tenta levantá-lo, mas suas pernas não respondem. O filme corta para dentro do trailer de croquetes, saindo dos rostos de John Travolta e Olivia Newton-John em um pôster de Grease, para mostrar Fientje apreensiva, rasgando uma revista que mostrava um horóscopo; tanto a promessa de amor hollywoodiana quanto a promessa de futuro astrológica são mentiras – e esse tipo de contraste entre uma imagem ideal e a realidade concreta, frequentemente suja e vulgar, será continuamente explorado por Verhoeven em seus filmes feitos nos EUA.

Fientje logo termina o namoro com Rien, cuja vida a partir de então será aquilo que tira o apetite do croquete. Quando volta do hospital, a cidade lhe recebe com o humilhante presente de uma cadeira de rodas motorizada (imagem), irônico para quem tinha acabado de ganhar uma moto Honda. Rien torna-se rancoroso, e não sem motivos; ele não pode mais andar de moto, não pode mais andar, não pode mais transar.

Há uma cena emblemática em que sua ex-namorada o leva, com a promessa da salvação, a um culto evangélico, em uma grande barraca de pano com luzes penduradas, insistindo para que ele vá até o pastor. O pastor começa seu suplício a Deus, com suas mãos sobre a cabeça de Rien, sob a expectativa crescente de todos ao redor. Corta-se para um plano próximo do rosto de sua ex-namorada, cheio de expectativa, enquanto esta acompanha a cabeça de Rien entrando em quadro, subindo cada vez mais (imagem), enquanto as luzes fora de quadro balançam formando halos oscilantes na imagem, instaurando uma atmosfera milagrosa. Quando a cabeça de Rien já está no topo do quadro e seu rosto também extasia com o aparente milagre, ele cai de novo em sua cadeira, primeiro em choque e depois em um riso desesperado, num plano que volta a se abrir. Não há redenção possível e, numa cena absolutamente soturna, o menino lentamente se direciona em sua cadeira de rodas para o meio de uma grande rodovia escura, esperando o momento de empurrar a pequena alavanca que controla sua cadeira de rodas motorizada e ser atropelado por um caminhão.

A cena do culto acontece, justamente, logo após os rumos de Eef, segundo pretendente de Fientje, começarem a se estabelecer: ele finalmente se assume gay para seu pai, um religioso ferrenho que lhe espanca ao ouvir a notícia. Ao longo do filme, observamos o personagem assaltar diversos casais gays na rua e mesmo incentivar seus amigos a ir atrás de um casal para agredir e pintar a boca de um dos meninos de batom. Sua própria homossexualidade é indicada em diferentes momentos pelo fato de que não consegue (ou evita) transar com meninas em toda chance que lhe aparece, ou mesmo por como observa suas vítimas por tempo demais antes de roubá-las. Até que em uma cena, após assaltar um velho exibicionista, um grupo de homens, liderados pelo irmão de Fientje, o persegue até um canto de obras – mesmo local onde Eef já havia assaltado um casal – e o estupra. Depois, enquanto está se vestindo, o irmão de Fientje lhe recomenda que simplesmente admita sua homosexualidade e se afaste de Fientje, após dizer saber que Eef gostou do estupro; os dois ainda começam a ter um caso depois.

Toda a trajetória de Eef é, certamente, aquilo que há de mais polêmico no filme, tendo causado um alvoroço na Holanda na época e sendo um dos motivos de Verhoeven ter ido aos Estados Unidos. A cena do estupro – e o fato de indicar não apenas que Eef gostou, mas de que foi o que lhe fez se assumir gay – é certamente um excesso do filme, mas não deve ser interpretada como uma declaração de valores. Mais do que uma tentativa de simplesmente polemizar, me parece uma tentativa de Verhoeven de tornar o filme de difícil digestão, de complexificar seus personagens, humanizá-los, para que sejam imperfeitos e ambíguos – algo semelhante ao que fará em “Flesh + Blood” (1985), onde a protagonista, na Idade Média, passa pela mesma situação, e a princípio chega mesmo a fingir que gosta do estupro, aparentemente para se proteger e lutar de volta, fingimento que aos poucos se tornará ambíguo.

Para Fientje, acaba sobrando Hans, que, como ela mesma deixa claro, não tem nada a lhe oferecer: “sem dinheiro, sem futuro”, “volte quando tiver algo a oferecer”, ela lhe diz após uma declaração do menino. Hans, que a princípio parecia não ser bom no motocross por conta de sua moto fajuta, continua ruim quando Rien lhe presenteia a sua Honda, tanto que o canal de televisão chega a fazer um programa cômico com ele, contrastando suas quedas com as manobras de Gerrit Witkamp. No final do filme, enquanto Rien se mata na rodovia, todos comemoram uma vitória de Witkamp no bar de seu pai, até estas quedas serem exibidas na televisão, começando um tumulto (com os mesmos motoqueiros da briga no trailer, no início do filme) que acaba destruindo o bar, cena catártica que parece expurgar tudo aquilo que foi comedido no suicídio de Rien, do qual ainda não sabem. Mas Hans, que na medição de pênis no início do filme foi quem se provou mais merecedor de conquistar Fientje, acaba conseguindo, e os dois são os únicos a receber um final feliz, em que Fientje garante sua segurança financeira incentivando-o a abrirem um bar juntos, sobre as ruínas do bar destruído.

A cena final do filme acompanha o irmão de Fientje indo embora da cidade na chuva, de carro, com seu trailer atrelado. Primeiro passa por Eef, no posto de gasolina, e o convida para ir junto, o que ele nega, afirmando que um dia enfrentará seu pai, que interrompe a cena passando pelos dois de trator. O irmão de Fientje oferece dinheiro a Eef e segue adiante, se despedindo também de sua irmã e Hans, que estão preparando o novo bar – a essa altura o tempo já abriu, há algumas poças de chuva na cidade. Ao seguir a estrada, a ex-namorada de Rien atravessa a rua em sua frente, correndo para pegar um ônibus que vai para Roterdã. O ônibus segue em uma direção, enquanto o trailer atravessa em outra (imagem). O plano final acompanha mais um pouco o trailer entrando na rodovia e, então, a câmera se distancia para um grande plano geral, revelando as diferentes rodovias se entrelaçando e acompanhando o tráfego mesmo após o trailer sair completamente de quadro, como se enfim abandonássemos aqueles personagens e voltássemos para o mundo real onde tantos outros carros, trailers e ônibus daquelas rodovias podem conter histórias como estas.

Os veículos, afinal, são o motor da narrativa, demarcando as funções sociais dessa rede de personagens e caracterizando-os de maneira tanto concreta quanto metafórica. A começar, evidentemente, pelas motos, símbolo de juventude, rebeldia, e mesmo de uma masculinidade – mais particularmente do motocross, um esporte sujo, praticado na lama. O filme começa acompanhando Eef saindo de moto da fazenda onde mora para o trabalho e sendo atrasado pelo lento trator de seu pai que está em seu caminho (imagem). A cena, ao mesmo tempo em que apresenta um evidente contraste entre campo e cidade, um modo de vida antigo e moderno, já introduz a distância entre gerações que será particularmente relevante no caso de Eef, com seu pai conservador. Sua moto sai, então, da pequena estradinha de terra da fazenda e entra na rodovia, junto com um ônibus – o mesmo que aparece no final do filme, com destino à Roterdã. Acompanhamos, então, Rien, saindo do bar de seu pai e pegando sua moto, se despedindo de sua mãe que lava o carro. Rien segue a estradinha de tijolos da cidade e o acompanhamos num salto com a moto, antes de cruzar com outro ônibus (talvez o mesmo) que atravessa a cidade. É a vez de Hans ser apresentado, e já somos introduzidos ao personagem tentando iniciar sua moto velha na porta de casa enquanto seu pai ri e então o ajuda empurrando-o até a estradinha de tijolos. No próximo plano já temos os três juntos de moto na estrada de terra.

Quando Fientje parte para o segundo pretendente, Eef, vai atrás dele de carro em seu trabalho de frentista de posto de gasolina – novamente, não por acaso. Os dois dão uma volta em seu carro, até chegarem a um caminho bloqueado; Eef, ao tentar manobrar, acaba atolando o carro num declive, e só consegue tirá-lo dali com ajuda do trator de seu pai, que o puxa com um cabo de reboque (imagem). A cena parece carregada de sentido simbólicos, desde a incapacidade de Eef de “ir até o fim” com o carro – que associamos a seu desinteresse sexual por mulheres – até a submissão a seu pai, com seu trator bruto. A cena é análoga àquela que precede o encontro sexual entre Fientje e Hans, quando ele, de moto, a encontra num lixão, de carro – o qual não consegue dar a partida. Hans, com sua moto surrada e roupa suja de lama, acaba levando o carro com o cabo de reboque até a cidade (imagem).

Não por acaso, nenhum dos meninos segue andando de moto no final, e Gerrit Witkamp continua invicto, desfilando pela cidade em seu conversível branco. Os veículos funcionam, no filme, não como uma extensão das capacidades dos personagens, mas como evidência de suas limitações físicas e condições financeiras, como carcaças mecânicas às quais estão submetidos e mesmo aprisionados, seja Fientje a seu trailer, Eef ao trator de seu pai, Hans a sua moto fajuta ou Rien a sua cadeira de rodas motorizada; essas máquinas grosseiras apenas reforçam o que há de mais humano e frágil nos personagens, que podem ser esmagados como mosquitos por um caminhão.

Paula Mermelstein

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