Shadows (1979) de Andy Warhol

Shadows” consiste em uma série de serigrafias de Andy Warhol dispostas lado a lado sobre as paredes do ambiente de exposição, operando como uma instalação. Sua primeira exibição, em 1979, apresentava 66 telas, e na última exposição em 2016 as obras foram apresentadas em sua totalidade, 102 telas.

Como não é raro na obra do artista, todas as telas partem de uma mesma imagem, apresentada aqui em diferentes cores na serigrafia e tinta acrílica sobre tela: uma mancha que se estende em duas direções. Diferente de suas Marylins, sopas Campbell ou vacas, no entanto, esta imagem, abstrata à primeira vista, não é auto-evidente. De acordo com o título, que é de grande importância aqui, trata-se de uma sombra. Nem um corpo nem um objeto, mas uma ausência de luz projetada sobre uma superfície, um pedaço de nada.

Por um lado, feita de puro jogo luminoso transformado em puro jogo de cores e contrastes, Shadows é uma mancha abstrata. Por outro lado, por tratar-se de uma sombra auto-declarada, este jogo nunca poderia ser, de fato, puro, pois a sombra se refere necessariamente a qualquer que fosse o objeto que a formou, estabelecendo lastros concretos com a realidade material – no caso, foram dois morros de papel machê, feitos especialmente para o trabalho em questão, que obstruíram a luz no espaço fotografado. Shadows, portanto, pode ser lida em dois sentidos: como um borrão que mancha a superfície do quadro ou como um pedaço de nada, que indica uma presença apenas fora do quadro.

Ainda que Shadows pareça distante das obras figurativas de Warhol, estas estão repletas destes dois recursos, o borrão ou mancha e o vazio. Como pequenos deslizes de uma máquina em uma produção automatizada, falhas, manchas e rasgos encobrem e acompanham suas Marilyns, os acidentes de carro, os suicídios e as cadeiras elétricas. No painel direito de “Marilyn Dyptich” (1962), por exemplo, a aplicação do silkscreen é desigual entre os rostos da atriz, alguns são quase inteiramente brancos, outros quase inteiramente escurecidos, não mais que silhuetas borradas. Em “Ambulance Disaster” (1963), o rosto do homem na imagem inferior é rasurado por um rasgo branco.     

Apesar do interesse de Warhol pela serigrafia ser geralmente justificado pela automaticidade da técnica, afinal, não se pode ignorar sua materialidade. Shadows parte de uma imagem fotográfica, feita de luz e sombra, e a transforma em imagem serigráfica, feita de espaços preenchidos ou não de tinta. Assim como em uma fotografia primitiva um pouco mais de luz ou sombra durante o processo determinavam inteiramente o sucesso ou fracasso da nitidez da imagem,  a quantidade de tinta na aplicação do silkscreen determina se este resultará em um borrão, em traços falhos, ou em uma imagem definida.

Não atoa, a imagem de Shadows remete a uma destas fotografias originárias dos primeiros experimentos, como aquela tida como a primeira fotografia, a vista de uma janela registrada por Joseph Niepce. A imagem, feita através de um processo de heliografia, como em Shadows, representa uma cena concreta (um telhado entre dois prédios), mas parece uma forma abstrata. Esta proximidade parece se dar em razão da simplicidade do processo de Warhol, reduzido à mera presença ou ausência de elementos, a imagem em abundância através da repetição ou em falta através do vazio – o que se relaciona tanto com os princípios da gravura (espaços preenchidos ou não preenchidos) aos códigos binários de um computador (que só trabalham com 0 e 1).

Em outros casos na obra de Warhol, como em “Orange Car Crash Fourteen Times” (1963), vazios ocupam telas inteiras, colocadas lado a lado às telas com imagens. O maior respaldo de Shadows dentro da obra de Warhol, nesse sentido, talvez seja o caso de 13th Most Wanted Men. A obra tratava-se de um grande mural em silkscreen preparado para a ocasião da feira mundial de 1964, sediada em Nova York, retratando o rosto dos treze homens mais procurados pela polícia, mas foi impedida pelos organizadores da feira, preocupados com sua repercussão. Como alternativa, o mural acabou sendo pintado de tinta prateada, e foi assim apresentado, como uma grande mancha abstrata e monocromática.

Mas Shadows não apenas indica a presença fora de quadro de um objeto concreto, ela materializa, dentro do quadro, um espaço. Na maior parte das imagens que compõem Shadows podemos ver duas formas se projetando, uma verticalmente outra horizontalmente. Com isso, – e com a ajuda do título, que determina uma natureza física e não apenas pictórica a essas manchas abstratas -, podemos assumir a presença de uma parede e um chão. Estas sombras, portanto, não se projetam apenas sobre uma tela plana, mas sobre um espaço vazio.

A questão espacial de Shadows também se expande para além do quadro, para a sala de exposição. Mais uma instalação do que de uma série de pinturas, esta apresentação conjunta e sem interrupções das telas de Shadows é parte crucial do trabalho, que deve ser tomado como um todo. Trata-se não apenas um pedaço de nada ou um espaço vazio, mas de uma sucessão de pedaços de nada e espaços vazios consecutivos, em cores distintas, preenchendo longas extensões de parede. As cores também tem um papel importante em Shadows, afinal – como em toda a obra de Warhol -, permitindo que este pedaço de nada apresente inúmeras variações. Como um adendo inteiramente supérfluo a estas imagens de origem concreta, a cor aqui parece um lembrete cômico, e talvez irônico, de que isto é uma obra de arte.

Paula Mermelstein