A economia estética do filme de ficção científica dos anos 50

Muito se fala a respeito da onda de filmes de ficção científica produzidos em Hollywood por volta dos anos 50, a maioria mais próxima do que hoje se entende por horror do que ficção científica. Muito do que se fala, entretanto, é sempre o mesmo; a relação entre esses filmes e o momento político vivido nos Estados Unidos no período, a Guerra Fria, o macarthismo, o medo da bomba, o medo do comunismo (o chamado “Red Scare”). Na grande maioria dos casos a aproximação é evidente, assim como as respostas à corrida espacial, fossem estas de medo ou fascínio. Entretanto, acredito que a questão acaba por resumir esses filmes a uma mera ilustração caricaturesca de uma época já saturada de esteriótipos (epítome do conservadorismo americano), em detrimento, por vezes, de seus potenciais estéticos.

Esses filmes, afinal, constroem sua própria ficção científica, que em muito pouco tem a ver com grandes nomes do gênero literário ou com sua interpretação em filmes contemporâneos, sendo talvez mais próxima das revistas pulp que popularizaram o gênero. Em muitos casos, aqui, a ficção científica se mistura ao filme de monstro, formando um híbrido menos científico do que o primeiro e menos fantasioso do que o segundo: algo próximo de um realismo mágico, no qual a realidade é o mencionado momento político americano, os emblemáticos anos 50. Na fórmula mais comum, um monstro de origens explicáveis (frequentemente um alienígena ou uma mutação de algum animal conhecido) surge em uma pequena cidade ou subúrbio americano, de preferência isolada. Frequentemente, para isso, se utilizam de cenários desérticos, seja no oeste americano, como em Them! (1954), ou nos pólos, como em The Thing From Another World (1951). Há, é claro, motivos lógicos para essas histórias se darem em espaços isolados, que compartilham com o filme de terror, que vão desde impedir a fuga de seus personagens à evidenciar sua vulnerabilidade frente à ameaça, estabelecendo um cerco que permite que o monstro, ou a ameaça que representa, seja literal ou figurativamente maior que suas vítimas. Surgem, entretanto, efeitos secundários dessa escolha, efeitos plásticos: somente em cenários e estruturas tão límpidos podemos realmente sentir o efeito de estranhamento do monstro ou evento que irromperá.

Um filme exemplar nesse sentido é Invasion of Body Snatchers (1956), no qual uma pequena cidade próxima a Los Angeles será contaminada por alienígenas que imitam a forma humana. Estas criaturas, a princípio absolutamente iguais aos humanos originais, provém de casulos de planta gosmentos, que fecundam os novos corpos. A imagem é perturbadora justamente por seu deslocamento, pelo elemento absolutamente orgânico e asqueroso que irrompe no meio da paisagem suburbana idílica. A ameaça, entretanto, será dividida entre este elemento absolutamente exterior e material e a suspeita interior que se alastra diante dos próprios habitantes da cidadezinha, que podem não ser quem parecem; o medo do desconhecido se entrelaça ao medo do conhecido ser desconhecido.

Nem todos os filmes encaixados nessa espécie de sub-gênero são de fato “filmes B” ou pequenas produções. Se filmes como It Came From Beneath the Sea (1955) ou The Blob (1958) passavam um pouco dos cem mil, filmes como When Worlds Collide (1951) ou The Day the Earth Stood Still (1951) tiveram um custo próximo a um milhão de dólares. Os melhores, entretanto, parecem trabalhar, justamente, a partir de uma economia material, que acaba constituindo uma economia estética, seja esta intencional ou não. Se esta escassez não é tão favorável para os efeitos visuais que esse tipo de filme geralmente demanda (com notáveis exceções como em Tarantula!, de 1955), ela com certeza o é para a construção do suspense narrativo; o que acaba acontecendo, então, é uma tentativa de encontrar maneiras de evitar esses efeitos, guardando a sua presença para momentos de clímax dramáticos.

Na falta de recursos cinematográficos, busca-se o estranhamento dentro da própria realidade. Um filme como It Came From Outer Space (1953), do diretor talvez mais proeminente desse sub-gênero, Jack Arnold, é um belo exemplo neste sentido. Nele, a cidade isolada se encontra no meio do deserto e o monstro que interrompe sua paz chega dos céus, sua nave caindo como um meteoro que o casal protagonista vê em um telescópio e vai em busca de alguma pista do mistério. Durante a maior parte do filme, entretanto, vemos apenas o deserto e os personagens – por vezes através do ponto de vista do próprio alienígena. 

Essa busca pelo mistério, aliás, é o que há de mais “científico” neste e em tantos dos outros filmes; geralmente há um personagem cientista que investiga e explica a questão, de forma semelhante a uma trama detetivesca. Em It Came From Outer Space, o personagem é um astrônomo amador olhando por seu telescópio, quase como se estivesse esperando o dia em que este meteoro iria cair diante de seus olhos. Seu olhar é científico, buscando objetivamente pistas na paisagem, interpelado por diferentes aparatos (telescópios, binóculos) – que encontram uma contraposição no “aparato” que representa o olhar do próprio alienígena, onde há sempre um efeito na imagem e uma música que o acompanham.

Olhar de um binóculo
Olhar de um telescópio
Olhar do alienígena

Para além dos rastros encontrados, como um brilho que se espalha pelo chão demarcando os lugares onde os alienígenas passaram, há poucas cenas que revelem de fato as criaturas, um pouco toscas, o que o próprio filme parece perceber e por isso evitar mostrá-las; há uma cena em que o protagonista olha para dentro de uma mina escura onde conversa com o alienígena, aterrorizante até vermos de fato a criatura um tanto ridícula. Há um vazio poético que se alastra pelo filme, que se manifesta em sua paisagem desértica, que é, entretanto, aquilo que há de verdadeiramente mais estranho por ali: o deserto é um grande vazio da onde irrompem formas estranhas.

Como em Invasion of Body Snatchers, os alienígenas também assumem forma humana, e a suspeita se instaura diante dos próprios habitantes da cidade. Tudo e todos, assim, tornam-se suspeitos, estranhos: o deserto com suas formas bizarras, os humanos abduzidos com sua rigidez  inquietante. Novamente, na ausência de demais recursos para causar esse estranhamento, é a própria figura do ator que deve assumir esse papel, seja efetivamente em sua expressão e figurino ou mesmo numa certa postura e disposição no espaço; o resultado são imagens que contém em si mesmas suas precárias disrupções cotidianas, não muito distantes, afinal, de uma suposta interpretação alienígena dos costumes humanos.

O deserto, portanto, aqui, não apenas serve como um local isolado e vulnerável ou um cenário límpido para se sujar, mas como um lugar de uma estranheza já dada, que já nos parece um cenário alienígena. Em um momento emblemático, quando o protagonista ilumina uma árvore com sua lanterna, ao ver uma estranha flor espinhosa característica da região, sua mulher, que está ao seu lado, grita. Ou um momento ainda mais interessante, este de fato poético, quando encontram um eletricista no meio da estrada, mexendo nos postes de eletricidade, que afirma ouvir sons estranhos e então fala “Depois de trabalhar no deserto por quinze anos como eu, você ouve muitas coisas, vê muitas coisas. O sol, o céu e o calor… toda essa areia e os rios e lagos que não são nem um pouco reais… E às vezes você pensa que o vento está nos fios e murmura, escuta e fala. Como o que estamos ouvindo agora.”. O filme não precisa fazer muito, assim, além de observar os mistérios preexistentes do espaço ao redor; com a objetividade, neutralidade, de um cientista.

Paula Mermelstein