O cinema como fetiche: dois curtas de Stephen Dwoskin

“É bastante revelador o quão complexa é a forma simples”

Stephen Dwoskin

O curta-metragem, em seu caráter sintético e destituído, tantas vezes, de uma função narrativa (à qual se substitui, antes, uma instância ficcional), é capaz de articular com o seu espectador outro tipo de jogo, quando seus elementos, dispostos sob uma unidade definida, resumida e simplificada no interior da obra, expressam uma espécie de “conceito”, síntese de uma experiência através de relações intrincadas. “Dirty” e “Moment”, curtas-metragens londrinos de Stephen Dwoskin, apontam, desde os seus títulos, para esta carga conceitual e à maneira como seus aspectos conteudísticos e formais se complementam de maneira exemplar.

“Dirty” (1971), a começar pelos seus créditos, escritos à mão sobre um papel amassado e sujo fotografado pela câmera, sem qualquer preciosismo de composição, demonstra já uma qualidade material que lhe será muito cara. Finalizado em 1971, trabalha com material produzido em 1965 e esta diferença de seis anos entre a sua filmagem e sua finalização é essencial ao desenvolvimento de uma nova solução expressiva pelo seu realizador: todas as imagens do filme são resultado da refilmagem dos rushes originais através do visualizador da mesa de montagem, criando imagens difusas, desfocadas e “sujas” em sua superfície material.

“Dirty” também é um filme “sujo” moralmente e é a admissão desta imoralidade que torna efetiva a sua provocação. Nele se veem duas mulheres nuas sobre uma cama, compartilhando uma mesma garrafa de vinho, que oferecem uma à outra, trocando constantemente de mãos. Situação extremamente íntima, de um caráter marcadamente voyeurista, estas ações são apresentadas pela repetição e fixação das mesmas imagens, fixando os frames exatamente nos momentos de toque entre as duas, sublinhando o caráter erótico dos seus gestos e sugerindo a eminência de um ato sexual entre elas.

A partir de um pequeno conjunto de imagens e situações – que não constituem “cenas” propriamente ditas, em um sentido dramático, mas pequenas vistas fugazes de gestos desempenhados por suas duas atrizes –, Dwoskin desacelera e fixa os frames, muitas vezes desenvolvendo novos enquadramentos e movimentos de câmera sobre a sua superfície estática, observando os pormenores de cada detalhe de seu registro e explorando suas diferentes capacidades expressivas. Assim é que imagens como as das mulheres levando a garrafa à boca adquirem um sentido sexual bastante evidente: seu gesto em direção a ela torna-se constante, incisivamente sublinhado pela repetição e decomposição do movimento efetuada por Dwoskin, que pouco a pouco estabelece um crescente potencial erótico no que diz respeito a este objeto fálico que ambas possuem em mãos.

No entanto, a fragmentação das ações e o constante escurecimento dos frames pela flicagem da tela neste mesmo procedimento impedem que se veja com maior clareza aquilo que efetivamente acontece entre as mulheres na confusão de suas movimentações sobre a cama, guardando apenas o caráter sugestivo das suas relações. Dwoskin, afinal, não oferece estas imagens ao seu espectador sem contrapartidas, pois a imposição desta impossibilidade do olhar evidencia uma expectativa frustrada pelo visionamento do ato sexual, denunciando, no limite das suas possibilidades de significação, que aquele que se torna “sujo” é, em realidade, este mesmo espectador.

Esta impossibilidade do olhar está também presente, de maneira distinta, em “Moment” (1968). Nele, não há elementos que se sobreponham à superfície das suas imagens, nem quaisquer máscaras, efeitos ou contextos dramáticos, mas tão simplesmente uma representação muito centralizada na relação entre ator, câmera e cineasta, de que decorre o registro frontal de uma ação que é disposta muito explicitamente para a câmera.

Toda esta ação será resumida em um longo plano de aproximadamente dez minutos (correspondente à integridade do rolo de filme), mantido sob um único enquadramento, sem movimentações de câmera, sem entradas e saídas de quadro, sem deslocamentos espaciais de sua única atriz, que permanecerá enquadrada em um primeiro plano do começo ao fim desta duração. Assim, é pela proximidade da câmera em relação a sua atriz que esta impossibilidade do olhar se perpetua, determinada exatamente pela limitação àquilo que está espacialmente contido nos limites restritos do quadro.

A princípio, vemos esta atriz balançar a cabeça positivamente, possivelmente em concordância com Dwoskin, atrás da câmera, para que a ação do filme comece, gesto que aponta não somente a presença de uma outra pessoa (o realizador), como também, a partir de um detalhe de preparação que é guardado pela preservação da unidade do rolo do filme, se refere ao próprio espectador que a observa, fazendo-lhe uma menção indireta que será enfatizada nos minutos seguintes. A atriz acende um cigarro (que manterá sempre visível em uma de suas mãos), dá alguns tragos, e logo começa sua ação, fora de quadro: ela se masturba, a princípio de maneira indiscernível, mas pouco a pouco sugerida pelo ritmo cada vez mais intenso de sua vibração corporal e pela recorrência de seu olhar, a um só tempo de êxtase e provocação, em direção à câmera.

Imagem ausente, a masturbação corresponde ao eixo central deste filme, em que não há nada acessório: sua duração corresponde a da totalidade de um rolo de película, ao tempo que a personagem leva para chegar até o orgasmo e o seu cigarro para queimar completamente. Na perfeição do encaixe entre a representação e o suporte em que ela se apresenta se impõe um senso de economia absoluto, em que a realização é possível somente a partir de sua adequação à limitação do seu meio expressivo, gesto contraditório de domínio e submissão que evidencia o caráter plástico e material de “Moment” e das relações os seus elementos, que chegam juntos ao esgotamento, em uma espécie de gozo simultâneo.

Jamais é evidente se a masturbação apresentada aqui é verdadeira ou falsa, se o filme se constrói a partir de um realismo radical ou de um puro artifício – questão que permanece suspensa ao longo do registro e que o filme não se deseja responder, valorizando esta necessária e decisiva imprecisão. Mais uma vez, aqui é o cinema, o espectador e seu olhar que se põem em questão, apontando ao fetichismo do próprio dispositivo cinematográfico e do ato de criação, nas possibilidades de manipulação, na obsessão pela perfeição dos encaixes e, principalmente, nas potências sugestivas da imagem e seus jogos de representação.

Matheus Zenom