
The Killer, novo filme de David Fincher, adaptação de uma história em quadrinhos do autor francês Matz, já em seu título sugere uma armadilha: é fácil demais, vago demais, genérico demais, ainda por cima associado ao diretor conhecido por filmes de “killers”. A segunda pista de que talvez as coisas não sejam assim tão simples vem pelo fato de que o assassino, em The Killer, interpretado por Michael Fassbender,não é um serial killer, como o de Seven ou os de Mindhunter, alguém que mata por impulsos obscuros, mas um hitman, um profissional que mata por dinheiro e não escolhe suas vítimas. Ainda que trabalhe de forma também ritualística, este ritual a princípio não tem nada a ver com desejos sexuais reprimidos, uma moral religiosa exacerbada ou traumas de infância. É simplesmente um ritual de trabalho, cotidiano, não muito distinto daqueles que o próprio espectador deve experienciar em seu dia-a-dia.
Este ritual nos é apresentado na primeira cena do filme, na qual a personagem de Fassbender prepara uma arma com mira em um apartamento em reforma, com vista para um prédio chique de Paris, onde assumimos se encontrar seu alvo. Acompanhando a imagem, ao longo de todo o filme, temos uma narração em voz off do protagonista, que consiste principalmente em uma extensão deste ritual de trabalho, uma espécie de mantra que repete para si mesmo – talvez como forma de normalizar aquilo que faz, manter seu pulso no limite que considera necessário. As frases, que poderiam ser tiradas de um livro de auto-ajuda bem duvidoso (mas qual não é?), valorizam a cautela e o cinismo: “Atenha-se ao plano”, “Antecipe, não improvise”, “Não confie em ninguém”, “Nunca desperdice uma vantagem”, “Lute apenas a batalha que você foi pago para lutar”, “Evite a empatia, empatia é fraqueza e fraqueza é vulnerabilidade”, “A cada passo do caminho se pergunte: o que eu ganho com isso?”. Enquanto espera o momento certo – espera que, como comenta logo de cara, é parte fundamental do trabalho –, ele observa a rua, faz yoga, ouve The Smiths, come no McDonalds.
Para além destas frases repetidas, o assassino também divaga sobre questões morais mais amplas, como justificativas para seus atos que já ouvimos muitas e muitas vezes, de Raskólnikov à Hollywood. “A cada segundo morrem X pessoas”, “Existem bilhões de pessoas no mundo”, “Matar ou morrer”, “É cada um por si” etc. Uma, em particular, não menos clichê, se sobressai: “Desde o início dos tempos, os poucos exploram os muitos. Custe o que custar, seja um dos poucos, não dos muitos”. A frase implica não apenas cinismo mas um senso de superioridade, provavelmente necessário para conseguir exercer sua profissão.
A princípio, assumimos que este homem é excepcional. Ele é meticuloso e fala com propriedade acerca de um trabalho que certamente é extra-ordinário, ao menos para a grande maioria dos espectadores que não são assassinos profissionais. Ele diz ter matado muitas pessoas e se apresenta como um profissional de ponta. Ele quer ser um dos poucos, não dos muitos. Chega, enfim, o momento de atirar no homem que pretende matar e ele erra, acertando uma dominatrix que passa na frente da vítima.
Após este primeiro erro, ele logo comete outro: volta para casa. Como entenderemos depois, era uma política clara da empresa para a qual trabalha que tal erro implicaria em represálias e ele deveria fugir o mais rápido possível. Chegando em casa, na República Dominicana, encontra sua namorada quase morta. O irmão dela lhe informa que as pessoas que a atacaram fugiram de taxi; a pista será seu ponto de partida nesta nova jornada de retaliação. Agora deve matar todos para quem trabalha, solução à la John Wick, já esperada pelo espectador, com a diferença de que não parece fazê-lo tanto por vingança, mas por garantia para o seu futuro – talvez pela “necessidade de se sentir seguro”, como comenta em mais uma de suas divagações.
Logo veremos que, apesar de tudo que afirma nos primeiros minutos de filme, todas suas ações apontam aquelas de um homem comum, até mesmo medíocre. O filme começa com um erro seu e, se de fato observamos como ele opera em cada um dos assassinatos que virão a seguir, veremos que não há nada de excepcional naquilo que faz: ele se veste de turista como disfarce, compra uma lixeira e um uniforme de gari para entrar no prédio de sua empresa, pendura um copo na porta de seu hotel para ouvir se alguém entrar, compra (na Amazon) um abridor de fechaduras eletrônicas, droga um cachorro etc. Os diversos nomes falsos que utiliza como disfarce, todos de personagens masculinas de sitcoms americanos, pais de família, “average Joes”, já eram uma pista para sua verdadeira essência. A fantasia de turista, afinal, talvez não seja apenas um disfarce, ou ao menos não está tão distante da sua realidade.

Do mesmo modo, em um primeiro momento, podemos nos perguntar, como o irmão de sua namorada, que assassinos profissionais chegam e fogem da cena do crime de taxi? Mas, afinal, como eles chegariam lá? Se não fosse de taxi, seria simplesmente alugando um carro, como o protagonista faz em mais de um momento em que lhe vemos na Hertz. Talvez pudessem fazer uma trajetória mais elaborada, trocar de transporte, ir até o destino final a pé, mas para que se dar ao trabalho, se é tão fácil encontrá-los de qualquer forma? Se, em Identidade Bourne (2002), as tecnologias de vigilância e de conectividade do mundo contemporâneo eram colocadas como empecilhos para o protagonista, condenado à uma fuga perpétua por todos os lados, elas aqui permitem que as personagens não tenham que se esforçar tanto para alcançar seus objetivos, conseguindo passar ilesas mesmo com alguns tropeços.

No início de The Killer, o protagonista afirma ser “impossível não ser visto no século XXI”; aqui isto não é apenas um empecilho, valendo para os dois lados: a personagem de Michael Fassbender precisa se disfarçar e tomar certos cuidados, mas também lhe parece razoavelmente fácil– ao menos se compararmos com o filme médio de ação – encontrar e matar aqueles que procura. O taxista dominicano que levou os assassinos a sua casa, o chefe de sua empresa em Nova Orleans, a administradora da empresa que lhe fornece as identidades dos assassinos, os dois assassinos na Flórida e em Nova York, e o cliente em Chicago, quem ele acaba não matando.

Em cada morte, o assassino parece quebrar de algum modo seus mandamentos. Quando vai até seu chefe, o plano era adiar a sua morte usando uma arma de pregos, enquanto o interrogava, mas o homem morre rapidamente. Ainda que consiga matar sem hesitação, ele não é capaz de manter-se inteiramente indiferente aos sofrimentos alheios quando a administradora da empresa lhe pede para não sumir com seu corpo, para seus filhos receberem seguro e ele concede. Ele consegue drogar o pitbull do assassino na Flórida e invadir a sua casa, mas é surpreendido por ele e os dois lutam durante uma longa sequência até conseguir matá-lo. Ao invés de matar a outra assassina (Tilda Swinton) na rua ou em sua casa, ele a encontra em um restaurante na cidade de Beacon, em Nova York, e tem que esperar para matá-la depois que saem na rua. Por fim, quando chega ao topo da pirâmide, ao cliente que o contratou e iniciou tudo isso, ele não o mata. Simplesmente lhe pergunta se ele pretende continuar o perseguindo, aceita sua resposta negativa e vai embora no mesmo elevador que chegou, sem máscara ou disfarce. O homem é um milionário e, como o assassino nos informa, “os esforços da polícia são proporcionais ao patrimônio da vítima”. De volta em sua casa paradisíaca na República Dominicana, ao lado de sua jovem namorada, agora com cicatrizes, assume para si mesmo e para nós, que não é um dos poucos, mas dos muitos.

Diferente do filme de vingança habitual, a dificuldade de suas provas não vai aumentando de forma gradual. O “chefão” não é mais difícil de alcançar ou matar; pelo contrário, ele é bem mais indefeso do que era o assassino da Flórida, menos articulado do que a assassina de Nova York, menos difícil de encontrar do que o taxista e menos empático que a administradora da empresa. Este homem, que deveria ser o chefão de todo o empreendimento, o núcleo da corporação, a origem de toda a barbaridade do resto do filme, não está nem mesmo inteiramente ciente daquilo que acontece. Ele apenas contratou um serviço, e uma vez que este deu errado, aceitou a política de garantia da empresa que seria assassinar o assassino, cortas as pontas soltas, eliminar as evidências. Sendo milionário, ele pode se dar o luxo de ser facilmente reconhecível, mandar matar alguém e se manter ileso ao final do filme. Esse é um luxo que nem o protagonista tem, o que se torna claro quando ele mata a personagem de Tilda Swinton, assassina discreta e provavelmente cuidadosa como ele – representativa de sua “classe”. As únicas pessoas que não morrem no filme, além dele, são a minoria: o cliente e o alvo, ricos em seus apartamentos de janelas grandes e segurança fraca em Paris e Chicago – eles não precisam se esconder no Caribe.

Aquilo que há de mais original em The Killer é, provavelmente, a narração em voz off. O recurso em si está longe de ser uma novidade, mas a maneira como é empregado é cada vez mais rara no cinema. Pois apesar do protagonista de muitos nomes explicitar seus pensamentos para nós, nunca revela de fato suas intenções, seus posicionamentos. Ele retém uma opacidade, que primeiro confundimos com astúcia, para logo ser revelada como uma farsa. Acreditamos em sua honestidade, uma vez que está sendo sincero conosco a respeito de atividades ilícitas, quando na verdade ele está simplesmente vendendo seu peixe. Tudo que diz são informações genéricas, estatísticas facilmente encontráveis na internet. Ele cita uma frase de Popeye, mas na hora de citar Dylan Thomas, a frase não é realmente do poeta. Ele assiste programas televisivos como Dateline e Storage Wars. Em dado momento, menciona o caso de Gary Ridgway, o assassino de Green River, serial killer que matou 49 mulheres ao longo de duas décadas, mas não conseguia soletrar a palavra “gato”. “Mas ele era cuidadoso”, acrescenta. Seu caso não é muito distinto, não há nada verdadeiramente excepcional do que faz, ele é apenas cuidadoso – e nem isso é tanto, ou não estaria viajando o mundo inteiro e matando seus superiores para consertar seu erro.
Tudo aquilo que as personagens fazem em The Killer, se não é simplesmente senso comum, é algo que já aprendemos em um filme. Afinal, da mesma forma que o aluguel de carros ou as compras pela internet nos remetem ao nosso próprio cotidiano, personagens usando disfarces, nomes falsos ou fazendo longos discursos antes de morrer são cenas que já vimos inúmeras vezes no cinema. Com isso, o filme não é simplesmente um retrato do “nosso mundo contemporâneo”, mas trabalha também com os clichês de seu gênero, ainda que não os reitere o suficiente para ser explicitamente metalinguístico. A linha entre o filme que comenta a norma e aquele que a reproduz é tênue. O perigo, no caso de The Killer, é que tudo isso passe despercebido, que o filme pareça apenas um thriller sem thrills sobre um assassino profissional em busca de vingança. Podemos dizer que o filme é cauteloso e cínico, como seu protagonista, e como todos nós neste mundo reificado. Teríamos, então, o filme reificado que merecemos? Um produto de sua época, um “espelho da sociedade”? A ideia parece tão moralista quanto o final de Seven, onde um Fincher ainda inexperiente em relação a serial killers culpa todas as maldades de seu assassino na “imundice da cidade grande”.
A sensação é de que esta situação poderia ser levada mais adiante, ser explorada mais a fundo. O risco de ser mal compreendido já é um primeiro passo, mas o filme poderia ir além; falta um pouco daquilo que fez Showgirls e Starship Troopers entrarem em listas de piores filmes de todos os tempos. The Killer assume a cautela e o cinismo de seu protagonista, mas e quanto a sua mediocridade? Este é certamente um projeto mais sutil de Fincher, mas em momento algum questiona-se a sua competência; pelo contrário, a sutileza é bem recebida a essa altura da carreira do cineasta, um sinal de maturidade. O cineasta abraça a lógica on-demand, mas será que chega a subvertê-la como Verhoeven faz com a produção hollywoodiana ou na paródia da propaganda militar facista?
O momento é outro, claro, e produções espetaculosas em Hollywood se restringem, hoje, a filmes de super-heróis ou outros temas fantasiosos e trabalhados com CGI. The Killer é um filme feito para o Netflix, que certamente se destaca da maior parte das produções da plataforma. Podemos encontrá-lo, no catálogo do site, sob os gêneros de “drama” e “thriller”, com as indicações de que este filme é “dark” e “suspenseful”. Ele talvez seja sugerido para aqueles que assistem os tão populares reality shows de true crime. É relativamente longo para um filme on-demand, mas é para isso que existe a possibilidade de pausar. Além do mais, como o próprio Fincher fala, o Netflix lhe oferece um “controle de qualidade” que os estúdios, com todas suas limitações monetárias, e a sala de cinema, aquele lugar “úmido, fedorento e gorduroso”, não apresentariam mais [1]. A comodidade da rotina contemporânea não pára na Amazon ou na Hertz; está presente no próprio formato de exibição do filme. O assassino pelo menos sai de casa para matar suas vítimas, o espectador nem isso precisa.
Paula Mermelstein Costa
[1] Em uma entrevista recente para o Le Monde, disponível aqui: lemonde.fr/en/culture/article/2023/11/15/the-killer-on-netflix-a-lone-killer-with-a-meticulous-routine_6256017_30.html