Em sua maioria, os comentários, críticos ou não, a propósito de In Water (2023), se dividem em ressaltar o desfoque seja como uma transposição plástica da cegueira que acomete o diretor nos últimos anos, seja como manifestação simbólica da confusão pela qual passa seu protagonista. Em menor medida, fala-se de uma inspiração pictórica, nomeadamente por Paul Cézanne e suas figurações, de paisagens ou naturezas mortas, que tendem frequentemente ao que se pode considerar uma representação abstrata.
A comparação de Hong com Cézanne é mais interessante, porque se atém a um efeito estético e não procura justificativas simbólicas. A citação do pintor, entre outros artistas possíveis, não é por acaso: é, afinal, o artista sobre quem Hong sempre fala, ao citar suas inspirações, mas é preciso definir de que maneira essa influência acontece. Cabe aqui citar uma das frases de Hong que justificam uma aproximação do cineasta com o pintor, sobre admirar a rotina de trabalho desta outra arte: “Se eu pudesse, filmava todos os dias. Eu invejo os pintores que podem exercer sua disciplina no cotidiano”. [1][2]
Em grande medida, o que Hong admira é, mais do que qualquer pintura individual, a perseverança e insistência de Cézanne em pintar os mesmos motivos, em compor variações, em viver o trabalho diário e a pintura “pura”, sem influências de grandes temas, sem buscar a comercialização seu trabalho. Cézanne é um modelo ideal de disciplina artística, que fez da busca por um novo modo de representação da natureza um dos objetivos de toda a sua obra. Suas pinceladas não buscavam a representação fiel e coerente da Montanha Saint-Victoire ou das florestas ao seu entorno, mas a expressão de uma massa pictórica, a exposição de uma materialidade e de uma energia latente nessas paisagens, em que as formas parecem mover-se, tendendo a se sobrepor. Seu objetivo não era a abstração, mas a representação mais coerente, mais fidedigna possível à percepção dos motivos que lhe serviam de base, visando a uma representação “permanente” deles, não apenas uma impressão superficial da sua aparência.

Esse aspecto é evidente na maior parte dos filmes em que Hong trabalha sob estruturas complexas, que desfazem e reconstroem a ordem dos eventos narrados, onde camadas de sonho e realidade se tornam por vezes indissociáveis. Uma influência, portanto, que passa muito mais pelo nível de interpretação intelectual de como representar os elementos da realidade do que por uma manifestação plástica na tela, necessariamente. Trata-se sobretudo de encontrar um outro caminho para representar a realidade, que não por uma via direta e realista, mas um desvio que apreende ao mesmo tempo sua materialidade imediata e o que pode haver por trás dela, um sutil equilíbrio entre o concreto e o abstrato. [3]
No entanto, a comparação entre ambos enfraquece uma relação possível quando se baseia estritamente em termos visuais, tal como tem sido feita, com uma grande desvantagem para Hong, que parece ter seus filmes resumidos à imagens muito pouco intrigantes. Não apenas porque um frame é um fragmento entre milhares do seu filme, enquanto o quadro de Cézanne apresenta o trabalho já pronto, integralmente estruturado, mas também porque a composição jamais esteve entre as melhores qualidades ou interesses de Hong. Em todos os filmes, até hoje, Hong procura pelo enquadramento claro, frontal, desimpedido de obstáculos frente aos elementos centrais da cena. O desfoque de In Water, é verdade, rompe com essa clareza, mas não altera os demais elementos do plano, nem a configuração do filme como um todo, que confia na interpretação do texto pelos atores e na sequencialidade das cenas filmadas.
Hong não trabalha o foco da câmera relacionado a movimentação e a profundidade de campo, mas como uma superfície plana e estável. As personagens ou objetos não entram ou saem de foco, nem o grau desse desfoque parece variado, mudando somente de acordo com a distância do objeto para a câmera. No fim, o que Hong faz permanece como um registro figurativo, que ilustra uma narrativa realista. Tanto no conteúdo expresso ao longo da duração de cada plano, quanto na articulação dos planos ao longo do filme, o que ele faz não é senão restituir uma continuidade de eventos, que apresentam essa realidade a partir de um filtro mais destacado, que modifica a sua aparência, mas conserva seus termos gerais. Em outras palavras, o desfoque de Hong não é suficiente para que a sua concepção da imagem seja totalmente distinta, somente por uma mudança do valor que atribui a ela no filme. Em Cézanne, a pincelada é a pintura; o filme de Hong ainda não foi longe o bastante para que o plano tenha esse aspecto primordial, como expressão plástica: ele ainda serve sobretudo ao registro da cena.
Na feitura do filme, posicionar a câmera e iniciar um registro constitui uma operação simples e maquinal, enquanto o pintor tem de realizar todas as pinceladas, interpretando visualmente o espaço e traduzindo isso sob uma técnica pictórica. Um deve partir da tela em branco e alcançar essa figuração à sua própria maneira, enquanto ao outro a figuração já é dada a priori – ainda que seu gesto possa constituir uma recusa da objetividade, como é o desfoque de In Water. As diferenças não se restringem apenas aos meios, mas também aos objetivos de cada um: Cézanne quer ver a montanha, fazê-la pulsar, tornar mais intensa a percepção da sua materialidade. O desfoque no filme de Hong, ao contrário, tende a dissolver as aparências de cada coisa, tornar mais rarefeita a sua concretude. Hong busca também trabalhar rapidamente, terminando um longa em menos de uma semana, sem fazer nenhuma refilmagem; ao contrário de Cézanne, pintor obsessivo, capaz de levar anos para terminar certos quadros, insatisfeito até resolver os menores detalhes.
Associar imediatamente uma inspiração à uma influência e, consequentemente, o aspecto da pintura e do frame, sem questionar as particularidades de cada um, é deixar passar a oportunidade de perceber o que importa de fato na percepção que um artista pode ter sobre outro. É importante pontuar essa questão quando hoje, em qualquer debate, nomes de prestigio superficialmente conhecidos pelo publico comentador são livremente evocados como figuras de autoridade, a despeito do contexto de seus trabalhos. A comparação serve como elogio ao objeto novo, ainda não definido, mas reduz não apenas o entendimento da obra de referência como também impede que se busque uma definição própria desse novo trabalho, ainda intocado.
Matheus Zenom
Notas:
[1] “L’artiste que j’admire le plus est Cézanne. Quand j’ai découvert ses peintures, alors que j’étais à l’université, j’ai cru en mourir. J’ai ressenti une intimité qui me touchait presque. Cela me semblait d’une perfection telle que j’avais le sentiment de n’avoir besoin de rien d’autre. Partout où je vais, je me rends dans les musées et je demande s’ils ont du Cézanne, auquel cas je m’arrête devant pour ne contempler que ça, tandis que les gens passent”. Em entrevista a Julien Gester, publicada em: https://www.liberation.fr/cinema/2016/02/16/hong-sang-soo-cela-pourrait-me-ressembler-mais-c-est-une-illusion_1433772/
[2] “Si je pouvais, je tournerais tous les jours. J’envie les peintres qui peuvent exercer leur discipline au quotidien”. Em entrevista a Samuel Douhaire, publicada em Télérama, em 8 de junho de 2017. Disponível em: https://www.telerama.fr/cinema/la-methode-de-tournage-de-hong-sang-soo-je-m-adapte-a-la-meteo-et-je-laisse-les-idees-venir,159229.php
[3] “I saw this apple painting [“The Plate of Apples”] for the first time in an art museum. I was a student, so I had a free pass. I was standing there talking to myself, like, ‘This is enough. I don’t need anything more. It still is the greatest.’ I didn’t analyze it, but, naturally, I ask myself: why? Maybe his way of proportionalizing the abstract and the concrete is just right for me. I think that’s why, when I see his paintings, I never get bored. I can keep looking at them. They’re very fresh all the time”. Em entrevista a Dennis Lim, publicada em The New Yorker, em 15 de maio de 2022. Disponível em: https://www.newyorker.com/culture/the-new-yorker-interview/hong-sangsoo-knows-if-youre-faking-it