“Na minha chegada a Nova York, tive a impressão de já ter estado lá, de ter vivido lá por muito tempo, pela simples e tenaz pregnância de um olhar e de uma geografia poética, aqueles de News From Home. Chantal Akerman tinha meio que feito o reconhecimento por mim, e de forma alguma empobreceu a revelação do modelo. Ela me inventou a cidade, me deu as chaves.” (Vincent Dieutre)

O pontapé inicial para a realização de um filme pode vir de inúmeras fontes. Dentre as fontes escritas, muitos filmes, especialmente de grandes estúdios, mas também em outros círculos de produção mais independentes, no passado e no presente, nasceram de obras literárias. Alguns outros filmes nascem também da leitura não literária, mas de narrativas midiáticas (comumente histórias de criminosos ou de julgamentos injustos). No caso de News From Home, dirigido por Chantal Akerman, o filme retira da própria escrita cotidiana o material essencial de seu roteiro. As cartas da mãe carregam algo ready-made, ou de práticas de poesia surrealista, em que o efeito artístico se dá não pela autoria, no senso comum do termo, do texto lido, mas por uma justaposição ou colagem de um elemento do cotidiano na arte.
O primeiro elemento de fascinação por News From Home é a simplicidade em que texto e imagens cotidianas se encontram, uma espontaneidade em usar o que se tem em mãos para fazer um filme. Mas a aparente proximidade com o mundo, um flerte com o cinema documental, também pode acabar por esconder o trabalho de ficção, que é, apesar de tudo, a espinha dorsal de News From Home.
Em 1976, quando o filme foi rodado, Akerman já não estava mais morando em Nova York, portanto as cartas e as paisagens eram apenas memórias de mais de cinco anos. Para a filmagem, a realizadora passou seis semanas em Manhattan trabalhando no roteiro, dialogando com a fotógrafa do filme, Babette Mangolte, e “andando de metrô” [1]. Foi durante esse tempo na cidade que a ideia do voice over surgiu. Antes das cartas havia Nova York, e por causa de Nova York havia cartas.

A edição da correspondência para a filmagem permanece obscura: a diretora as reproduz na ordem que ela as recebeu? Há coisas que a mãe escreve que a diretora escolheu não ler? Ela as teria reescrito total ou parcialmente? Não podemos ter certeza sobre as alterações no material bruto, mas podemos testemunhar escolhas importantes sobre a narração do texto. Entre elas, a inserção do som direto da cidade (buzinas, trens passando sobre os trilhos) que acabam por tornar inaudível o conteúdo da fala.
Talvez tão importante quanto a leitura das cartas sejam os momentos de silêncio que se impõem em intervalos irregulares (às vezes duas cartas são lidas em sequência, outras vezes há silêncio entre elas). Esse silêncio estaria representando a irregularidade no recebimento de cartas ou uma indisposição da personagem da filha-diretora em lê-las? Sabemos que Akerman responde algumas das cartas, pois isso aparece nas palavras da mãe. Às vezes é possível imaginar que a personagem da filha está sentada na mesa de casa abrindo e lendo a correspondência, às vezes a impressão que passa é que as palavras são apenas memória enquanto ela caminha pela cidade.
O conteúdo do texto não é a total repetição (efeito que poderia ser produzido pela leitura da mesma carta diversas vezes), ao mesmo tempo que também não é inédito. De alguma forma, as pequenas variações tornam as repetições ainda mais salientes. Em alguns momentos, é como se as preocupações da mãe se tornassem um ruído no filme, como se estivessem sempre no fundo da cabeça de Akerman e do espectador.
Em News From Home, as palavras são de sua mãe, mas a filha filma aquilo que a mãe nunca poderia ter visto. Apesar de alguns pontos de encontro, há principalmente dissonância entre as imagens e o texto lido. Quando há alguma descrição nas cartas é a da vida europeia, e nesse sentido o próprio francês da narração faz contraste com a paisagem nova-iorquina. Por outro lado, as imagens confirmam que Chantal Akerman está de fato em Nova York como a mãe assume nas cartas. Em uma delas, a mãe chega a se preocupar com a temperatura que estaria fazendo na cidade, comentando que Chantal não se dava bem no calor. Pelas pessoas passando nas ruas conseguimos ver que o clima está de fato quente (o filme foi rodado em junho, verão no hemisfério norte).
O efeito da justaposição entre texto e imagem no filme é paradoxal. Akerman parece ao mesmo tempo intensificar seu laço com a mãe e se afastar dela. Se, por um lado, é um ato de ligação com a mãe ler as cartas com a própria voz, fazendo das palavras dela as suas, por outro Akerman produz também um movimento de afastamento na filmagem das paisagens urbanas. O impessoal reina nas ruas de qualquer grande capital, mas especialmente em Manhattan, e ainda mais particularmente em News From Home, em que a câmera sempre mantém distância daquilo que está sendo filmado, sublinhando a verticalidade dos prédios e as longas ruas e avenidas que parecem traçadas à régua em uma folha de papel quase sem relevos naturais.

Se as cartas são de uma mãe que quer se fazer intimamente presente na vida da filha, as pessoas filmadas permanecem sempre anônimas. A filmagem em um equipamento leve de 16mm, além de se adequar ao baixo orçamento da produção, carregado na mão ou em um tripé, auxiliou na manutenção do anonimato das filmagens, reduzindo o incômodo dos transeuntes em serem filmados.
Em News From Home, a sensação é que a proximidade de mãe e filha passam por uma distância intransponível, ao mesmo tempo que uma unidade inseparável. A apenas um oceano de distância, ela parece sempre perto, ela é uma voz que impõe suas preocupações, histórias e passado comum a personagem de Chantal Akerman, ao mesmo tempo que a concretude do mundo e da vida limita a mãe a ser apenas uma voz.
A movimentação de câmera, a predileção pela filmagem de veículos em movimento, evoca uma fuga que nunca se realiza, pegando carona na cidade em seus meios de transportes e observando as texturas da paisagem. No último plano do filme, o travelling out realizado na balsa de Staten Island (uma extensão do transporte público nova-iorquino que liga Manhattan a Staten Island, em Nova Jersey), há finalmente um afastamento de Nova York: estamos acompanhando uma fuga da mãe ou da cidade? Mesmo o final assumindo um movimento marcante e inédito até então, parece que para Chantal Akerman a ficção não busca produzir conclusões. News From Home também nos lembra a todo momento que o que estamos vendo é uma junção de imagens e palavras. Se o começo está na vida cotidiana, o filme também termina se abrindo novamente para ela.
Roberta Pedrosa

Nota
[1] Expressão emprestada de Babette Mangolte. (BERGSTROM, Janet; MANGOLTE, Babette; With Chantal In New York in the 1970s: An Interview with Babette Mangolte. In. Camera Obscura 100, Volume 34. Duke University Press, 2019. p.40.)